LUIZ ALBERTO MACHADO

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sábado, agosto 09, 2014

ALGUMAS DO CÉLIO CARNEIRINHO


 Imagem: não sei quem bateu essa foto, mas sou eu na pedraria do rio Pirangi – Palmares – PE.

ALGUMAS DO CÉLIO CARNEIRINHO

Célio Carneirinho – o Célio Carneiro de Siqueira -, era o mais quieto, sossegado e de venta aprumada da patota toda da gente. Como cada um da gente tinha seu pantim, o de Célio era sair com as tiradas inteligentes, curtir bossa nova com uma cara de chiclete Ploc e jeitão de John Lennon, caladão mas certeiro na horagá. Parece que ele se guardava ou se economizava para dar rasteira na gente que compunha duas ou três músicas por dia e falava demais. Ele não, só arrematava!

Como eu já dissera noutra, era da dupla Gulu & Carneirinho o sucesso mais retumbante entre a gente: Leonor. E isso deixava ele todo pavoneado: não havia rodada de birita, conversa jogada fora, petas e patranhas soltas, que não cantássemos todos juntos esse grande sucesso!

O nosso principal divertimento além de livros, muita música e biritada às fumaçadas muitas, era dar umas caminhadas até Água Preta pela estrada de São Manoel, dar umas voltas boas por Pirangi e sair por aí.

Um dia lá depois de coçar muito saco e se encher de tédio no meio do mormaço da tarde, a gente assuntou de ter com o poeta e alfaiate Raimundo Alves de Souza. Corria o maior boato de que ele era pai de Vinicius de Morais e a gente queria tirar a prova dos nove. Peguei um volume duma coleção que tinha a foto de Vinicius, um gravador embaixo do sovaco e fomos bater lá na dele na Rua Nova. Ele nos recebeu cordialmente, mas meio assim porque o negócio dele era ficar na janela soltando cantada para as moçoilas passantes, apesar de segurar um dreno e não ter mais idade para mandar ver. Nesse dia atrapalhamos esse seu afazer já no alto dos seus noventa e três anos. Apesar da idade, ele recitava poemas de cor e contou da sua vida. Inclusive que tivera vinte e três filhos, dois deles jamais vira. Aí disse: - Um deles é engenheiro ou arquiteto lá pras bandas de Brasília.... -, entreolhamo-nos e como o boato de Vinicius era forte, pensamos na hora: - Será que esse homem é pai também do Niemeyer? Nada. O poeta contou amiudado de muitas e todas a respeito de mulheres, o que era verdade. Todo mundo dizia que ele fora um verdadeiro Don Juan estraçalhando a vida de muita donzela. Foi quando entrou Vinicius no papo. Ele não desmentiu e contou uma história de que uma distinta senhora se apaixonara por ele no Recife e dali rolou tudo. Quando ela soube que ele já era casado, chamou uns capatazes e mandou matá-lo... ela era duma família ricaça de usineiros de Alagoas. Um tiro de espingarda acertou-lhe o braço, conseguindo-se livrar do tiroteio. Contou-nos que tempos depois, um granfino de Minas Gerais deitou-lhe admoestações para ele não abrir o bico acerca do namorico e que o mesmo assumiria seu filho num casório no Rio de Janeiro. Acrescentou ele que um seu amigo Zezinho Quaresma lhe dissera tratar-se de Vinicius de Morais e que o mesmo já sabia que era filho único de um pai de muitos filhos. E o velho tinha filho como praga mesmo e tudo brigado de ferro e fogo em Palmares e por esse mundão. Quando ele começou a dizer o nome dos filhos, a panelada começou a cair na cozinha. Baques de coisas lá pra dentro deu-nos a desconfiança de que a esposa dele lá dentro não estava gostando do papo, coisa que ele tratou logo de dar um fim e de quase botar a gente pra fora, depois de recitar uns dez sonetos de sua própria lavra, cada um melhor que o outro. Procuramos depois os filhos dele e cada vez que chegávamos, bastava falar o nome dele pra porta bater na cara da gente. O poeta Juarez Correya foi tirar isso a limpo e depois publicou na revista Poesia que ele editava no Recife, dando conta da paternidade do poetinha. Anos depois conseguimos que os familiares entrassem numa trégua e por iniciativa de um dos netos dele, as Edições Bagaço pôde publicar seus poemas em livro.

Essa foi uma das muitas e tantas outras aventuras nossas que caberia numa coleção de fascículos bem gordinhos duns cinquenta volumes. A maior delas foi quando nos juntamos para irmos até a Serra da Prata, de pé por Pirangi. Arrepara só! Acertado, não sei se sábado, domingo ou feriado, só sei que saímos o dia amanhecendo eu, Ângelo, Gulu, Ozi, Ripe, Mauricinho e Célio – não lembro de mais algum outro da trupe, com o maior alforje de brebotes enlatados, bebida, cigarro, violão e muito papo. Quando chegamos no pé da montanha já era meio dia e faltava muito pra gente chegar lá em cima e ver o panorama. A primeira coisa que Célio reclamou foi: - Pra quê mesmo a gente trouxe a porra desse violão? Nossa, estávamos cansados e até a roupa pesava. Célio foi quem mais sofreu: usava uma calça jeans daquelas bem apertada, assim tipo ele era manequim 46 e usava uma calça 38, deu pra entender, né? E o pior: o saco do cara parecia inchado entre as pernas abertas. Um sufoco! Arranchamos embaixo da primeira sombra que encontramos, esquentamos os quitutes e feijoada enlatada, bebericamos e a conversa era uma só: vamos voltar de Rural, não dá pra voltar a pé. Só que se ficava longe de Palmares, ainda tinha muita terra pra Catende. Decidimos no palitinho e entoamos juntos o Trem das Alagoas de Ascenso Ferreira: “Vou danado pra Catende, vou danado pra Catende, vou danado pra Catende com vontade de chegar”. E que vontade de chegar. Comemos poeira e estrada. Quase cinco horas da tarde foi que achamos a dita Rural salvadora de todos os anjos e santos e améns e voltamos aboletados morto de cansados pra Palmares. Viramos frase d´O Corvo de Edgar Alan Poe: “Nunca mais!”.

Pra encurtar a história, vou provar pra vocês porque o Célio era o mais famoso entre a gente. Como dissera, ele é um dos autores do sucesso Leonor.

LEONOR

Nem mais Ipanema num chope no bar
Num fim de semana de papo pro ar
Quero ver como é, como é que vai ficar
Sem você comigo não dá pra levar
Sem o seu carinho não vou suportar
Leonor, você era a mais linda
Entre as flores do meu jardim sem flor
Amor, foi você tudo que eu tinha
Eu lhe perdi, foi culpa minha
Amor, amor, amor, só Leonor.

Depois, ele mandou ver noutra parceria: Pirangi, com Marco Ripe que hoje se assina Marco de Olinda. Uma música lindíssima!

PIRANGI

Voltei pra rever o pedaço de mim
Que ficou por aqui
Ó Pirangi eu tentei me separar de você

Gosto de lembrar das tardes fagueiras
Que se iam ligeiras
Ó Pirangi eu tentei me separar de você

Mas aqui estou e quero abraçar tuas pedras,
Tua fonte, mergulhar em você e ficar.

Doutra feita, outra maravilhosa parceria que acompanhou o sucesso de Leonor e Pirangi: a parceria dele com Zé Ripe, Mata Sul.

MATA SUL

Terra que o diabo vadeia
Mulher tira homem pra dançar
Coragem não existe nessa terra
Urubu quer uma cana pra chupar

A carniça está toda ocupada
Em contrato com tudo que é doutô
O pior é que a coisa sempre cai
Na mesa do trabalhador
Sim, sinhô
Sim, sinhô
Na mesa do trabalhador.

Essas três músicas são cantadas e gravadas até hoje de tão maravilhosas que são. Célio só não teve muita sorte com uma outra parceria: eu. E conto direitinho o porquê de não vingar. Seguinte: uma sexta feira da paixão de mil novecentos e lá vai teibei, a gente se arranchou na garagem lá de casa e depois de embeiçarmos uns dois botijões de vinho de cinco litros (com mentira e tudo!), a gente achou de selar nosso pacto na primeira parceria musical. Começamos a juntar acordes e a solfejar melodias rascunhando uma letra que no fim deu uma balada até que da boa, só que a gente estava meio bicado e havia baixado um santo tipo Roberto Carlos às avessas. Apois foi. Fizemos, mangamos, rimos que só um da cara do outro e ficou. Ainda sei de cor:

ANTIROMANCE

Ah, esse amor partido, sem gosto e sem cor
Na sua efígie de quadro borrado
Ah, essa dor que murmura
Resmunga terna e segura
Nosso ocaso na inércia do sonho

Ah, que as veredas do amor me corrói
Na insensatez da vergonha
Que me arrebata, me torce
E me põe desolado
Nessa caso meio inacabado

Quantas manhãs refletem o amanhã
E o sentido do gozo e da dor
É que o amor remexe e me trai
E me põe de cabeça pra baixo.

Acho que foi depois dessa que o arrependimento bateu forte nele de resolver de uma hora pra outra tomar tento na vida. E foi, duma vez só deu uma direção na vida: passou no concurso Banco do Brasil e no vestibular de Direito. Por causa disso se avexou logo em noivar para nunca mais dar as caras no meio da gente. Formou-se, acho que já se aposentou e deve estar gozando a vida num restaurante no litoral pernambucano, não sei onde. Um dia desse nos encontramos em Maceió e ele taxativamente disse: - Não tenho mais tesão nenhuma pra essas porras de música. Tô noutra e vamos nessa!

Saravá, amigo Célio & pro povo todo & meninada que já deve estar tomando conta de tudo! Beijabrações.

Veja mais Passando a limpo.



sábado, agosto 02, 2014

PASSANDO A LIMPO

  Imagem: Foto recolhida por Eilson Freire.

Como fui muito andejo entre as escolas, conto logo que comecei no Grupo José Bezerra e, depois duma crise hepática, fui parar na Escola Fraternidade Palmarense para concluir o ensino primário, fazer admissão no Ginásio Municipal onde fiquei os dois primeiros anos do ginasial concluído no Colégio José Ferreira Gomes. Deste saí pro Colégio Diocesano para começar o segundo grau, o qual findei no Colégio Nossa Senhora de Lourdes. Foi aí que continuei minhas estripulias artísticas.

No colégio das freiras fui muito bem recepcionado pela Madre Maria do Espírito Santo que logo me nomeou representante da turma. Lá um timaço de pedras boas: Wilson, Sérgio David, Alexandre Goia, Virginio, Luciano de Chiquinho e outras trocentas pessoas camaradas.

Não parando quieto, estreitei primeiro amizade com o pianista Sérgio David com quem, toda noite de sexta feira, largava os afazeres e cultos da igreja batista para bebericar comigo vinhos e vermutes até altas horas, ouvindo peças pianísticas que eu dispunha na minha modesta discoteca, que ia desde os eruditos aos do rock progressivo e música instrumental contemporânea. A gente viajava na ideia mesmo ao som de Gismonti, Rick Wakeman, Keith Jarret, Tomita, Vangelis, Chick Corea, Duck Ellington, etc e tal. Virávamos a noite, a ponto de um dia lá, a gente se organizar e partir emendando dum dia pro outro pra assistir o espetáculo 1984, de Rick Wakeman, lá no Geraldão, em Recife. Nem lembro que ano foi isso, sei que a gente, curtiu o som e outras fumaçadas de braqueros que rolava adoidado na pista do ginásio, viramos a noite lá e zarpamos de volta de manhanzinha cedo depois uma tocada de improviso que demos no apartamento dum distinto lá que nos acolheu. O negócio deu tão certo pra nossa banda que, anos depois, findamos os dois bancários lotados em agências diferentes do velho e bom Recife, pra nunca mais cruzar as ventas na vida.

Mas voltando a conversa do colégio das freiras, certo dia lá, eu e o Sérgio David havíamos já dado umas ensaiadas num duo violão/piano, chegando a nos dar o topete de querermos apresentar nossas traquinagens no auditório do colégio. Vupt! O negócio cresceu e logo chegaram juntos pra compor a executada, o Wilson que tirava foto e dava uma de baterista, e o Luiz Virgínio que era músico já de estrada que se enturmou com a gente de posse do seu contrabaixo, para, enfim, formamos um quarteto que por completa falta de imaginação, não conseguimos nomear. A gente ensaiou direito e bonito e, num dia lá que não lembro de jeito nenhum de que ano foi, acertei com a madre superiora e ela levou a turma toda pra assistir no auditório. Foi um arraso. Contudo, o quarteto só resistiu a essa apresentação, cada um arribando pruma banda, seguir seus afazeres: eu fui fazer Letras na Famasul; o Sérgio virou bancário e se restringiu ao piano da igreja; Wilson foi tirar foto e imitar seu ídolo Cauby Peixoto; e Virgínio arribou concursado numa instituição federal pra Maceió, só o encontrando uns 30 anos depois. 

 Imagem: Uma das fotos da nossa apresentação no Colégio. Adivinha quem está todo cheio de munganga na bateria! E quem está do lado? O Amaro? Tem mais outras fotos, mas não consigo encontrar.

Anos depois reencontro Wilson e no meio das nossas cachaçadas, certo sábado eu fui armado do meu violão e ressaca inspiradora, até o apartamento dele. Aboletado e jogando conversa fora, a gente começou um papo musical que findou numa parceria duma canção que eu perdi na memória e só devo ter registro dela no meio de uma tuia de fitas cassetes que carrego e nunca mais tive tempo de ouvir. Foi a única parceria e, no frigir dos ovos, esquecível.

Esse mesmo Wilson, filho do saudoso amigo João do Foto (e a sua lambreta envenenada), tornou-se Wilson Fotografias – a sensação das fotos da região! Emendamos muitos bigodes nas maiores biritadas da gente perder até a noção do tempo com outro sujeito que fechamos um trio da gota: Gláucio Braga de Queiroz, mais popularmente conhecido como Gal do Caixão, ou Gal da Funerária, ou Gal do seu Guedes e dona Glorinha e outras tantas afiliações – outro que faz uma data que não revejo. Depois conto as dele.

Hoje o cabra Wilson tomou jeito, virou cantor de verdade (o que muito me envaidece, pois ele gravou no seu cd duas músicas minhas, Cantador e Desnorteio), fez-se vereador e locutor na tradicionalíssima emissora da integração regional, a Rádio Cultura, com o programa Nos tempos do Ferroviário que sempre que posso aprecio pela rede aos sábados de tarde

Todavia, entre as lembranças mais representativas do colégio das freiras, como a da irmã Eugênia, dos colegas de classe e dos amigos professores, uma eu destaco com o maior prazer do coração: o professor Barbosa. Ele era meu vizinho de fundo na Cohab (eu morava na rua D e ele na rua A e não havia muros para divisar as residências. Um andava pelo quintal do outro, à época. Tempos bons). Esse professor, gente boníssima e da melhor estirpe, era um daqueles que faltasse um, ele estava lá pronto para lecionar. Ele era professor de Matemática. Contudo, faltou o professor de religião, ele mandava ver; faltou de Química, ele lá; faltou o de Física, ele na maior; faltou o de Moral e Cívica, oxe, moleza; e era assim: qualquer matéria, ele dominava. Aí, teve um dia que o professor de Inglês não apareceu. Aí, sim. Agora que a gente ia conhecer pela primeira vez a saída do Barbosa. Ôxe, nem deu tempo da gente começar a imaginar como seria o estrupício, logo, no de repente, ele abriu a porta espalhafatosamente e tascou com seu ar envolvente:

- Vamu aprendê ingrês qui portugueis nós já sabe!

Veja mais aqui.