segunda-feira, abril 23, 2018

ANA DE FERRO, A RAINHA DOS TANOEIROS

ANA DE FERRO, A RAINHA DOS TANOEIROS – O espetáculo Ana de Ferro - A rainha dos tanoeiros, produzido pelo Grupo Teatral Risadinha, texto da carioca Miriam Halfim, está com apresentações previstas para os próximos dias 28 e 29 de abril, no Teatro Marco Camarotti (Sesc Santo Amaro, rua Treze de Maio, nº 455), em Recife, unindo história e ficção conta a história do relacionamento vivido entre Ana de Ferro e Maurício de Nassau, no período holandês pernambucano. Maiores informações pelo fone (81) 3216-1728 ou aqui.

domingo, abril 22, 2018

BUROCRACIAL DE VITAL CORRÊA DE ARAUJO


sou poeta
nomeado por concurso
(conserva de vida letrada
para patíbulos da posteridade)
sou o timbre
da voz pública
carne de fé oficial
para a fome do porvir
cidadão da sinédoque
servo da sinecura
caneta do mando
e do mundo
soldado do estado puro
do lucro e da lírica
munido senso
do aço e do cívico
(cínico roedor
dos ossos do ofício)
sou poeta
tributário da lei
obedeço
às gramáticas da palavra
os poemas da pecúnia
fabrico poemas sentado
nas almofadas
dos gabinetes
ou nos corredores
sem alfombra
perdido
na sala de espera
da esperança
prisioneiro
do relógio de ponto
final.

MEMÓRIA DAS MÃOS

a viva solidão
penetra o corpo
extinto de espera
atiça a saudade
o longo frio da noite
nas agudas chamas
do silêncio
o sonho acende
lentamente
se esculpe a espera
da matéria
do mármore do tempo
rebentam
imagens de carícia
no seio selvagem
(memória
ou imaginação
das mãos?)

BUROCRATA EM ATO

burocrata à cata
de processos obesos
buscando
nos autos esconsos
a raiz das rubricas
a metafisica
dos indeferidos
e os sem (cem) efeitos
da decisão letal
de público executada
pelo diário oficial
dentro do prazo
conforme os ritos
da morte processual.

INÍCIO DO EXPEDIENTE

o burocrata abre
o envelope da manhã
e lavra
no livro próprio o termo
de abertura do dia:
arruma-se na cadeira,
observa a agenda,
abre a gaveta, organiza
o edifício dos carimbos,
guilhotina uma pilha
de autos prioritários,
separa com sapiência
o expediente diário,
coloca no arquivo
os processos antigos,
indaga das notícias
do jornal oficial,
(antes de ler
a última edição
de seus despachos),
expulsa os resquícios de sol
do seu gabinete grave,
fecha as cortinas,
liga a sinfonia fria
do ar condicionado,
acende um cigarro,
repete o café,
cruza os sapatos:
começa mais um dia
burocrático.

LOJAULA

o objeto enjaulado
na vitrine
da loja
em colóquio mudo
com o olhar
selvagem
do consumidor
doente
em estado
de descrédito
preso
no lado de fora
da jaula
sem direito
de entrar
na loja
e consumir
o desejo do objeto
alojado
no lado de dentro
da jaula.

MÍTICA
A Edjar Powell

um galo grego
de canto escultural
que apanhe
o sol caído
da descuidosa mão
de Fídias e fabrique
num voo homérico
a mitologia no quintal.

POEMAFOME
(MÃO-POEMA)

um poema-soco
contra todas as sórdidas
formas da fome
contra todas as claras
fontes da fome
um poema-punho
contra todos os plenos
planos da fome
uma mão-poema
contra a face de flor
da fome
uma mão-poema
contra o pulmão frágil
da fome
uma mão-poema
em torno do esôfago
da fome
um poema-corpo
que seja
comida
para a sede
de ira
do homem-fome
um poema mão
à fome
um poema sim
ao homem
(sem fome).

A PALAVRA CALADA
A Luiz Carlos Guimarães


desfibra a palavra
quando cala
quando o caule
da árvore fala
que é vento
verbo e alicerce
anoitece
quando as selvas
todas são sugadas
e o trêmulo das folhas
proibido
quando os discursos
são lacrados
dentro das praças
sitiadas
e o som negado
aos ouvidos
e o grito cortado
na garganta
e o medo aberto
no meio abrupto
do dia
desfibra a palavra
quando a árvore da fala
e os frutos dos gritos
são demolidos
pelos silêncios vivos.

MORTO URBANO


os defuntos urbanos
jazem plácidos
inconclusos e confortáveis
estendidos
na sua morte
minuciosa
burocráticos
formolizados
imersos na tristeza
e na alfazema
entre flores sorridentes
com a etiqueta
da identidade inútil
espetada
nos pés em leque frio.

SEIOS

cumes de carne
sem metáforas
rijos
deuses redondos
para o culto
alpino
das mãos
pouso
da ave dos lábios
seres binários
de pele ágil
para a sede tátil
dos dedos
para a fome decimal
dos desejos
seios
sinuosos mistérios
róseos
abertas geometrias na carne
vivos cristais do desejo
que detonam
a claridade
adormecida no corpo
seios
formas carnais do instinto
que contêm o gesto
de tocá-los
e a sede
de bebê-los
instantâneos
seios de âmbar
e de espuma
seios de náilon
e de lua
seios de veludo
carmesins
seios que latejam
e gritam frenéticos
como pássaros impressos
no corpo amado
presos do desejo
de afagos
seios
canções de carne
que mordem a boca
e encantam a alma
da mão.


BUROCRACIAL – O livro Burocracial (Pirata, 1982), prêmio Escrita de Poesia (SP), do escritor, jornalista, advogado, professor, conferencista e tradutor Vital Corrêa de Araújo, é o segundo dos vários títulos publicados pelo autor que, conforme o poeta, advogado e artista plástico, Iran Gama, no prefácio da obra, assinala: [...] Burocracial é, pode-se dizer, um resumo biográfico, exposto por olhos de crase que se adentraram nos carimbos da vida, com todas as suas rorinas e até mesmo o sabor recente da novidade. Só que não é o resumo biográfico do poeta, cujos momentos, com êxtase, Vital Corrêa de Araujo apreendeu na exata dimensão da vida, do amor, da morte, e de toda a sua horizontalidade. [...]. Veja mais aqui, aqui, aqui e aqui.


sábado, abril 21, 2018

A POESIARTE DE CYANE PACHECO


Sério, não é melhor do que a ilusão?! O amor é bicho solto, eu o conheci assim. Desatrelo e não saio de perto, não saio de dentro do seu círculo de giz. Mil vezes inventando minhas próprias palavras, meus olhares sobre cada uma das manhãs, sem o temor do eclipse sobre mim, mirando a ausência das grades invisíveis, sem hora para dormir. Não, eu quero brincar distante da dor corrosiva que vejo estendida em outros varais, não quero viver estampada nos papéis antigos, atrelada à algibeira patriarcal. Ele me ensina a ser cada vez mais livre e aprende comigo, a tecer ainda mais, suas asas inocentes.

Iniciando a série "Os lugares que eu queria estar com ele". 1. Na lua, mas esse não vale, já estivemos lá.

A literatura é uma ferramenta muito perigosa no amor. Não me refiro às palavras que assoalham o bom afeto. Essas, mesmo sendo palavras-silêncio, aparentemente ausentes de si mesmas ou do que dizem os olhares, ainda encontram-se submersas naquilo que recorrem aos sentidos, principalmente ao tato, à audição ou paladar (a saliva mata algumas breves sedes), essas narrativas a partir dos modos inventados: estando, os indivíduos em campos estreitos, cada um diante do outro, percebendo a música, nas palavras segredadas, fiadas noutros fusos, trazidas à luz, desapartadas da imagem que conduz às descobertas desse lugar, ali, alojam seus corpos desamparados e desejantes. Há quem compreenda muito cedo, como enredar essa teia, como perguntar sobre o amor, sem no entanto, mergulhar nas águas da natureza comum erigida pelos homens distraídos. Há outras criaturas, como eu, que descobrem esse mistério tardiamente. Então, apressam-se em retirar das palavras, o manto denso de pele que as envolve ou desnuda, desfazendo-as, remontando-as, abolindo aquelas que travam à língua, que imobilizam o passo seguinte, que repartem o gesto (tornando-o dúplice de si) e, divisam a transcendência (em si e no outro), zelando pela brincadeira do sagrado, acendendo as lâmpadas íntimas, encontrando saídas através dos muros da linguagem. Custodiar o amor, sob os olhares do mundo, das coisas falhas, das bulas herdadas, das marcas da dor, dos jogos inúteis, do perverso círculo que invade e destrói a natureza fina da inocência, no interior dos arquivos decompostos, na sucessão dos dias mortos, nos velórios dos desejos, encerrado-o nas grades do sonho, é encarcerar a descoberta dos vôos próprios das uniões, na realidade das palavras sonhadas, dentro do silêncio que as remata. É imperiosa a coragem de olhar o outro, inaugurando os alvoroços da descoberta, destituindo os artifícios das ilusões, arrasando as boias dos medos, varrendo os engenhos do ciúme e assolando os pactos de sedução e dor. Essa seria mais uma declaração pública oculta de amor, mas é somente uma saudade relativa à palavra e ao silêncio. Clareira inaugural em minha vida, toda para ele.

O amor de um ano atrás
Não é mais o mesmo amor
Nem de uma década passada
Sequer os primeiros guardados nas prateleiras da estante
Hoje é outro
Aquela estrada erra sem suas pegadas
Aquilo que ficou foi um registro
É preciso que se diga
Que o menino agora brinca no meu jardim
E não é meu 
Nem de ninguém
Menino, jardim ou rei
Apenas está aqui
Inventando outras lendas
Sendo um homem diverso
Nem eu mesma sou aquela do dia da queda
Quantas vezes tive que morrer 
Para entender o amor?

Ao longo dos séculos, breves ou abundantes, havidos, entressonhados, alimento dos vícios, das serpentes, dos gênios. Outros, inventados, entregues à má sorte, cilíndricos, parvos, tecidos no improvável gesto. Quantos mortais, violentos, tácitos e arrebatadores d'alma? Terríveis, recônditos e suaves como a morte. Imóveis nas telas de linho, animados no cinema, circulam nos automóveis, nas estiagens do campo, pulsam dentro das caixas, dobrados em minúsculos papéis, segredados e escritos, no interior das calças encabuladas, túmidos, contidos. Erram nas estradas a pé, nos vôos medrosos, nas gangorras dos oceanos . Agarram-se às notas e dançam ao ritmo dos tambores gastos, dos acordes agudos e graves, das teclas alternadas em p&b, nas máscaras e caretas. Somem e cortam gargantas, duelam, rasgam vestidos, esfolam o organdi antigo. Tingem de sangue, quando em perversas balas, lâminas, dentes, gritos, grades, risos. Suspendem em cordas e bancos, balanços últimos, liláses, cadáveres frios. Ingredientes, mãos, doces e salgados, fogo e horizonte. Limite, poema, loucura, sobrevivência surda e desértica. Gordura, ossos, lágrimas, unguentos. Princípio, onda, estranheza e fim. Invento, arco-celeste cerzido nos pássaros, régua, número, cinzel. Século e imagem. Animal, ocidental, demente, sedutor, insuficiente, medida de quatro palmos e três sementes. Brincadeira de vulcões, tornados azuis, ondas gordas de conchas e sal, afogamento. Dentes imensos, saliva acre, assobio das pedras, movediça lama, cataclismo, ouro inútil, pão, peixe e corrente. Pneus, portas aias, molas, plumas, costura, lona, corpo de balé, exaustão, controle, livros doentes. Sinetes, ruídos, vermelhos acesos, olhos marejados, gemidos, lugar comum, goteira, leite, cegueira diante do tempo. Dinheiro, fome, cor, fúria, canteiro. Gravidade, placenta, veludo, espelho labiríntico, anseio. Silêncio, chave, vazio, sujeito, furor, saliva, paramo, fosso, fio, claros, escuros, futuro, lugares inexistentes, canais d'água, a cabo, satélites, nuvens e versos. Amarelos enfurecidos, tramas desfeitas, pontes e chaves, banco de praça, estilete e cascas das árvores, estrada, fosso, indiferença. Olhos e mãos. Terço e óleo ardente.

Acordei
Como quem rouba candelabros 
Quem demole pedreiras 
Quem se afoga no rio
Construo trincheiras para me voltar contra os meus fantasmas
Acordei como quem foge
Ainda que não sinta medo
Que não enxergue a mentira
Acordei e abri os olhos errados
Aqueles que quis cegos e errantes de nós
Deitei meu pescoço no cadafalso íntimo
Girei sobre o meu eixo para não alimentar o monstro
Tantas vezes morri que perdi a conta
Minhas mãos estão geladas
Visto meu corpo retesado
Com um agasalho em chamas 
Crepitam abelhas de fogo e eu não te encontro
Quis fugir, repito, foram tantos dias sozinha 
Que esqueci o desassossego
Não estou no lugar de todas elas
Vivo no cerne do meu deserto
Não caminho com a multidão
Traguei algo corrosivo
Que impregnou minha garganta, meus pés
Abrasando a saudade e meus gestos inocentes
Chorar diante da montanha
Próxima às fronteiras perigosas das palavras
Que sendo alheias não deviam me atiçar
Até o final da manhã 
Desperdiçarei os espólios reativos
Enxugarei às lágrimas
Guardarei em lacrimário diverso
Toda a minha fealdade
Resguardei o melhor para ti
E isso requer que não pese nos teus ombros
Aquilo deixado por outros
Nem diante de mim, surjam estranhas imagens
Debulhei e separei o afeto
Grãos diversos numa única mesa
Dali me retiro enquanto aguardo 
O assombro arrefecer
Acatarei na carne do sensível
Apenas aquilo que não me cause dores escusas
Por isso
Desabotoarei o peito e retirarei a pele do meu coração
Entregando-lhe renovo, em sua inteireza e nudez
Eu não engulo o choro
Não costuro o riso que é todo teu
Tornei-me uma mulher muito antiga
Porque conheço a morte e seu imo
Não salgarei para ti 
O lugar do poema
Ou uma 
Ou outra coisa
Não me aproximo daquilo que me faz verter notas tristes
Não reclamo o passado
O presente, sim 
Embora te dê todo o tempo que precisas para varreres a tua casa
Limpar os teus móveis e plantar novas sementes em tuas mãos
Desde o dia em que acreditei ser o marco e o vazio
Desde o dia em que te acompanhei 
Porque vi o teu amor descobrir os meus véus trazidos do leste
Tanjo o que pode nos afetar de modo triste
Equilibro-me como as pedras 
Forasteira sob as pontas dos pés
Meu clamor não é vulgar
Nem eu estaria aqui
Não fosse a imensidão de tudo isso
Encontro desmesurado, cama de saliva e foguete
Não furtasse sua verdade desmedida
Por isso choro
Enquanto sangro as mãos do poema
Arrosto a montanha íntima
Para que ela não soterre nossos dias

Há aquelas que vêm junto com o sono, quando nenhuma caneta, nenhum gravador, sequer uma areia e um graveto se acercam de nós. Caem perfiladas, o texto pronto e, pela manhã, ao acordar, vejo que se foram, ansiosas, não esperaram os vestígios da memória. Então, as palavras somem para nunca mais tornarem. Mas, ontem, tentei apanha-las enquanto fugiam e as aprisionei, como fiz com os nostálgicos mandarins, encontrei teias e fios esgarçados do lençol, então as amarrei ao espelho da cama. Hoje acordaram silêncio e farol. Fiz tudo isso para dizer que ontem, li o texto mais belo até hoje entrevisto. Li cada palavra e o silêncio agudo. Tantos pontos que fariam tropeçar o olhar, mas não, não deixei de compreender o diálogo entre o autor e seu amigo Joseph B. Era música, silêncio, delicadeza, licor, transparência e solidão, dessas palavras inteiras que se nos fazem voltar os passos, para entendermos ainda mais o percurso da amizade, da palavra e do tempo. Vi que meus olhos foram iluminados pelo sentido de cada uma daquelas palavras, libertadas assim que levantei e lavei o rosto. Como uma conversa. Como o tempo.

Serão de fato 
Impuros os espelhos?
Quem neles se abriga que tanto me assustou no passado?
Eu não estarei longe de ti quando aqueles que ali vivem
Aprisionados e mudos,
Vivos do outro lado do tempo
Me disserem de todo o decorrido percurso
Lembro-me que no dia em que risquei o fósforo e acendi a chama
Era estranha a visão que se desenhava naquele portal
Fugi porque não estavas
Eu não sabia nada da tua existência
Eras ainda mais distante do que os mortos que saíam do escuro
Hoje sou tua aprendiz e tua amada
Perscruto teu corpo
Conheço teus ritmos e teus sinais de nascença
Acordo com teu desejo atado à mim
Acordamos um só
Como deve ser um casal
Quebrados os antigos espelhos de fumo
Os lagos corrompidos dos deuses
Túmulos profanados 
O que retiras de mim e lanças nos mares de gelo?
Quem serei quando vieres novamente me buscar?
Virei de qual tempo para ti?
Apressada a morder-te a nuca
A abraçar-te desejando jamais me afastar
E voltar às bordas do fogo inquieto da casa onde testemunho as ruínas
Onde ainda está presa minha imagem 
Onde me ausentarei apenas no fim
Esperarei por ti
Dentro e fora dos teus espelhos
Todos os dias
Esperarei por ti
Iluminada e nua por teus olhos inocentes e tentadores 
Assistirei teus braços virarem asas
Largas invenções de vôos
Distâncias que percorremos juntos
Acastelados naquele primeiro dia 
Em que visitamos o além de nós
Lugares de medos banidos, de incomuns paisagens
Ali
Disseste que estavas pronto para me ver despida do que fui
Como me pareceste aclarado por tua dor
Não são impuros nossos espelhos!
Eles são nossos próprios olhos e eu estou dentro do teu corpo
Tu vives dentro do meu
Eu não quero estar longe de ti quando morrer
De todas as mortes que me trazem as manhãs
De todos os silêncios que requerem nossa presença
E nós também estaremos ali

Muda, como uma semente que permanece viva, rompendo o silêncio doentio dos dias. Semeio palavras precisas na exígua terra. Morro e broto na dor do sertão. Sobre os dias primevos, dessa floresta tardia, ninguém me verá. Sempre seguirei minhas estações, ainda que me doam as palavras ou a ausência delas. Não há quem catequize meus alvoroços. Brinco, fugindo do horror. Desde sempre, estive ali, nua e inocente.

Há que se pensar no outro
Dar abrigo, é preciso levar pela mão
Atravessar a rua, conduzir à estância 
É necessário arremessar nos caminhos escuros 
Todas às culpas do mundo
Desmontar as cruzes, desobedecer os códices
Ceder aos encantos que são a própria vida 
Não há premonição ou passado a ser cavado sob meus pés
Tudo pareceu vivido enquanto eu o esperava
Sem saber quem era ou onde vivia
Foi para ele que guardei todas as mulheres que fui e sou
E, eu? 
Agora sou tudo e choro a dor de outrem
Aparando a lágrima sem embuste
No calcificado gesto dos casais
Será violento o fim?
E, os olhos, onde estavam, quando eu o beijei?
Minhas mãos não estão sujas dos sonhos defuntos
Das teias esgarçadas do abandono
Havia um quarto morno, quase frio
E, uma criança com um esgar nevado
Morta 
Deitada na estante da sala
Ali, onde aos prantos
Espalhei incêndios à sua volta
Apontando o tempo da partida
Salvei os livros e nada mais
Reuni as cinzas
Reparti a palavra 
Assisti aquele outro amor dar se ausentar
Foi essa a dor que não brotou de mim
Fechei os olhos e também me despedacei 
Maculei o que trouxe nas costas, há tanto tempo
Essa dor vai diminuir até tornar-se quase nada
Nunca estive aqui nesse lugar
Ele inaugurou alvoroços em mim
Saiba, eu não queria vê-la chorar 
O assombro ocupa o lugar do interdito aceno
Hábito, âncora, distância, voz, domínio
Não podemos sustar esse amor
Ele somos nós
O dia não amanhece como nas fotografias
É preciso o arremesso da janela
A friagem insuportável a atingir os ossos
A cabeça contra a parede
Não o futuro que em treva
Obscurece o gesto, frenagem cruel
O veneno cursando às veias
O dia não é aquilo que se posta na nossa frente
Quando estamos vivos
Abro os olhos e vejo montanhas de escombros que me desafiam
São os meus mortos, aqueles que carrego sem cessar
Desde que o vi, irrecusável destino
O dia é palpável como nossas borboletas
Aquelas que engolimos enquanto corríamos
Não nos voltamos para arremessar os dardos banais
Contra ninguém, nem contra você, que é tão bonita e antiga
Não resistimos e sabemos que é preciso
Demolir e restaurar
Diariamente a casa e o sonho
Brando abrigo
Negar a permissão à teratologia 
Que esconde-se debaixo da cama
Que espreita a mágoa e a seriedade inútil
Reconhecemos as filigranas da espera
O percurso das nossas recusas
As ásperas investidas da vida
Somos sobreviventes dos nossos desígnios
Aprendemos a observar as fogueiras findas
Não sabíamos que seria assim
A incorrupta presença sempre estará ali
Submersa no pranto do desconhecido
Urge boiar e ter a serenidade dos monges 
Não vimos que ficou suspensa a gota 
Num dos cílios dos olhos verdejantes
Não quisemos o mal
Não fomos nós que nos ocupamos por inteiro
Foi a sina e o tempo
Que secará a lágrima 
E forrará a cama para que você durma noutros braços
Noutro tempo além
Agora não, mas virá novamente o riso
Em um colo diverso de calor e sal
Acredite em mim
Já estive aí
Avanço porque minha pele arrepia 
E eu não sou mais sem ele por perto e dentro e tanto
Desmedido olhar e desejo
Temos infâncias análogas, ainda brincamos com cata-ventos e poças d'água
Sei que iremos mergulhar sem medo
Para nada, talvez um dia partir e chorar
Essas mesmas lágrimas antigas
Ou fiaremos essa rede com nossos beijos e nossas mãos
É preciso aprender a desatar os laços do poder
Dar um passo além das cercanias antigas
Estender os braços para o lúdico, esquecer as rodeias erigidas
Arredar do outro, levar consigo a memória do abraço e dos dias bons
Em triste hora, tecer um manto, guardar os risos
Encaixotar as páginas e os baldios avisos
Não estarei para ver
São outras as minhas estações
Onde também há dor
Agora esteiras de nuvens estendem-se para os meus passos
Foi o tremor quando o vi e me encantei, acredite em mim
Também por isso
Guarde minha elegância e meu gesto contrito
Como um presente, um poema acatado e triste
O tempo soltará as velas
Partir não é um castigo

Também há lugares para ouvir a música escolhida. Queria ouvir essa maravilha de Shigeru Umebayashi, em um imenso galpão, com o teto de gesso caindo aos pedaços, teias finas e vidros abertos ao frio. Duas cadeiras, duas taças de vinho e o silêncio das palavras. Esses são tempos de olhar no olho e perguntar: "Será possível viver o amor?" A resposta viria inocente como a verdade.

Era apenas placenta e sangue do poema
Montanha de terra, desenhos na carne viva
Olhos perfurados e balanço de todo o corpo
Se auto-ninando cheio de coragem
Havia uma sebe onde recostou a cabeça
Antes dos girassóis se curvarem ao abismo escuro
A corda partira em ambas as direções
Ensurdecera para o assobio 
Para o estrondo das montanhas se chocando 
Elevando os muros de gelo
E escolheu morrer mais vezes ao dia
As palavras, suas lâminas simbólicas
Seu pulso em branco
Diante dos que guardam às trágicas heranças
Que ruminam o resto dos seus ossos
Enquanto ela foge da mira e mastiga os próprios pés
O precipício de si é a loucura de esfregar os olhos
De banha-los nas águas do afeto 
De girar a memória do ventre
Como quem dá cordas nos relógios de sol
Bífida palavra 
Insígnia na sua frágil artéria
Leite acre nas mãos em concha
Espiras de cuidado contornando
Violentos campos de tensão em direção ao alto
Desconhecidos olhares que a atravessam 
Como caminhos ambíguos
Tempestuosa encruzilhada de gritos 
Onde a roda do carro condena à morte o desconhecido
Ainda brinca de pêndulo sua imaginação

Naqueles dias sombrios, no passado escuro, ignorante e mal-cheiroso, foi embora um Paulo Freire e, quem ficou no lugar? O pastiche do pastiche baba-ovo, uns boçais e vazios professores de o.s.p.b e e.p.b, que não ensinavam nada, além de obrigar os alunos a ficarem na simetria das filas inúteis e cantar o hino nacional, enquanto conhecidos e desconhecidos eram mortos e torturados. Hoje, subliminarmente, os sucessivos pastiches, herdeiros dos banidores dos grandes homens de antanho, são bem piores, mais sofisticados, mais replicados e hipócritas. Infelizmente o devir me inquieta.

Rede de pesca
Páginas estranhas
Princípio ofuscado 
De pólvora e arroz
Língua de osso
Naus negras Kurufune
Palavra acesa
Vagas do sagrado
Kimbei 
Espingarda 1544
Todos aqueles a quem dei o melhor afeto
Disseram-me palavras confusas
Cegos de si 
Me odeiam por isso
Os gêmeos subtrairam apenas um dia
O mundo ficou sem um olho
Roupas alvas de peçonha
Eu nunca consegui descascar maçãs tão rapidamente

Estranhas nuvens pairaram na juventude do meu avô, outras atravessaram os céus do meu pai - um rapazote taludo. Quando completei 01 ano e a nuvem de chumbo do autoritarismo, que hoje está sobre nossas cabeças, nem falo mais de uma utopia desalinhada, me refiro à distopia que se estenderá ao hades da insensibilidade estética instalou-se e continua, descaradamente, fazendo-nos dizer que "a coisa aqui tá preta". Ficarão tão nus, os reis, até então, conspiradores das reedições dos "passeios" nas veraneios, dos redecorados porões, tudo em nome do Senhor (que, existindo, citaria "Os Baianos e os Novos Caetanos": "O que é que eu tô fazendo aqui nesse disco?!"). Fiquemos atentos, trinquemos nossos dentes, continuemos empunhando nossa leveza, salvando nossa mínima clivagem da liberdade. Quantos de nós atravessará esse serpentário posto no lugar do que foi um país?

1 - A Casa
2 - A Praça
3 - O Mar
4 - A Montanha
5 - O Deserto
Cinco lugares por onde passeei com as minhas mortes. Todas meninas de colo, em cada uma delas, foi crescendo o desejo de se tornar minha amiga, de brincar comigo e usar minhas flores. Hoje, são velhas que sopram palavras no meu ouvido, cantam antigas canções e embalam meu sono. Elas vivem ao meu lado, são minhas irmãs. Eu as deixo durante anos, penduradas em um varal, depois as retiro e sento cada uma delas, na minha sala de nunca estar.
Primeiro lugar: Ainda não abriam os olhos, viviam nuas na grama, circundavam às esferas do meu recreio, tentavam apanhar com as mãos, os peixes azuis no espelho d'água, vinham à hora certa da ceia, arremessavam pérolas no escuro, folheavam às fotografias e seus clarões intensos. Uma delas, voou pela janela, eu a vi e pensei que era um gato. No fim desse lugar, pensaram que eu era cega. Abri desde cedo, meus olhos para o espanto.
Segundo lugar: As árvores eram vermelhas e a morte soprava folhas de sangue, estrelas altas, piso fervente e o vento abraçava o corpo, trazendo o tremor e o sobrosso. Havia um coreto cheio de gente, e elas se esgueiravam para me deixar fruir, descalças, sem tirar os olhos de mim.
Terceiro lugar: Diversa morada, onde elas mergulharam em mim, as que caminham na areia e aquelas que convidam para um passeio sem fôlego. Outra profundeza que alcançava a interior, nunca consegui enxergar meus próprios pés, temi perder o chão e deitar numa vaga traiçoeira, a fundura era carregada de mistérios, engoli muito sal, sabia quando era apenas um corpo enregelado de medo. Ali, devia haver outro tipo de luz.
Quarto lugar: Numa noite, uma delas, apareceu vestindo azul escuro, usava uma cabeleira negra até os ombros, eu a vi e tive que me segurar, ela me chamava para segui-la. Dizia que todas me esperavam, agarrei-me à porta e não fui. Dali, avistei a cidade e seus pesadelos.
Quinto lugar: A morada de todas elas, onde riem e dançam circundando fogueiras imaginárias, lugar que atravessei em silêncio, ninguém se despediu no início dessa travessia, não há o que pensar diante do imperativo chamado, para morrer e viver, repetindo esse gesto, eu sabia que teria que cruza-lo do início ao fim, sem garantias, sem corcovas para sentar e descansar, sabia que era o último percurso, nem a areia, nem o sal, nem o frio noturno impediram que elas me acompanhassem. Há muito saí daquele lugar ermo, hoje não há mais medo ou seu extremo. Apenas um ponto neutro e seguro - o colo de cada uma delas e suas mãos tocando meus sonhos.

Na larga clareira aberta por René M, que seguiu a palavra de ordem, mas a inscreveu com uma força deslocada de sua própria temporalidade (e do lugar onde todos tomavam seus cafés e contavam moedas), que recorreu à filosofia, e sobreviveu enquanto seus pares tombaram no perigoso caminho das artes, o fotógrafo Sarolta B, fincou sua poesia extraída das lentes e das nuvens escuras, da velhice extrema, de uma ideia de céu, das longas cartas ou línguas - saídas das obsoletas máquinas gigantes e do peso da lua. Assim, as imagens são perceptíveis em sua estranheza, as figuras se transmutam em vazios e angústias, numa outra espécie de solidão que caracteriza os destemidos, os sobreviventes e os que ainda guardam no bolso, bilhetes escritos e fragmentos da delicadeza

Vindo por aqui
Toma, dou-te minhas mãos e minhas esferas
Leva-as para itinerários secretos
Partindo dos meus pontos de fuga
Dia qualquer de inverno
Fogo que incendeia meus sertões
Terias que trazer a nudez do teu olhar
Sem os trajes que usas para esconder teus escuros
À beira do rio
Ou nas ruas das tuas quedas
Na noção e sentido das tuas flechas negras
Terás que vir só
Que observar os meus braços se agitando 
Para lembra-te que é outono
Que somos folhas em movimento
Terás que escrever um poema com tua saliva
Ajoelhar-te diante do nada e fechar os teus olhos sedutores
Assim me verás
Espírito de anciã que pede por ti
Que reza para que sejas leve como minha carícia
E, sobre tua cama
Ordenas as palavras com as quais deves me brindar no dia seguinte
Reparando em mais uma das minhas mortes
Daquelas de onde fizeste brotar minhas primeiras lágrimas 
Reunindo todas, de uma só vez
Ainda que eu fizesse uma prece não fugiria de ti
Não quero apartar-me de ti, mesmo no frio que nos alcança
Quem te diria sobre todas as minhas ruínas?
Quem levaria minhas palavras tardias, senão o vento?
Minhas línguas de fogo não te deixariam morrer de frio
Vivo estás 
E imóvel 
E belo
Junto de ti
Onde nos liquefazemos
Intermédio de nuvens e foguetes
Desconhecemos, ambos, o tempo

Ainda não havia clareado o dia, quando eu o disse - porque digo tudo a ele, destemida, ocultando meu alvoroço das vistas públicas, que nosso encontro me trouxe aquilo que somente quem desconhece o mar, pode sentir ao vê-lo pela primeira vez. Quem aproxima-se e posta-se diante daquela imensidão d'água, com assombro e encantamento pela própria descoberta. Apenas aquele atingido pelo alumbramento, tem a visão desse deus líquido, do mesmo modo, sei que é ele meu escolhido. Então, com ele, também inaugurei um querer que boia ou resiste às vagas furiosas. É isso que ele é dentro de mim: o mar que encerra todos os mistérios do olhar. Ele guarda em si, tudo aquilo que possuem os oceanos.

Ficar diante dele é prescindir do poema, do sal, do desenho, do além-muros, é sentir vontade de levantar os vôos da palavra, chama acesa, brincadeira da lágrima, percurso das pontas dos dedos, infinitude do beijo, travessia de todas as pontes do ser. Ele é aquele que me diz sobre o amor, o único, desmesurado e longe do sítio comum. Primeiro, no reconhecimento que fez do meu corpo, da minha alma e do meu espírito, do tempo da minha existência, valente amor - porque não me assustou e não me temeu. E, é preciso, nesse tempo do mercado dos afetos, que se diga que é possível olhar às nuvens, perder o medo, dar às mãos, escrever palimpsestos sem culpa, cuidar e eliminar às ilusões, estender na vasta cama, o lençol tântrico e seguir suas instruções, ir além do que se foi, porque unidos pelo grande mistério. É possível morrer todos os dias e acordar para regar as plantas, dar água aos cães, interromper os discursos, abrir a conversa como uma brincadeira sem fim, caminhar na estrada de terra, carregando apenas o peso dos livros. Aguerrido, seu corpo borda no tecido da minha existência, suas ideias, seu pensamento, sua música, seu nome - singular e último querer. É imperativo que se recuse à vizinhança de Éris, que o desconhecido laço negro não arremate o enlevo e o obscureça, que não subtraia o que me ocorre quando ele me olha e eu o vejo, quando ele me carrega consigo, e leva a certeza de que merece todo o amor e o cuidado de "cy". Ele sabe de tudo e isso basta. Não estamos mais sós. É assim que se ama.

entre duas víboras
abri meus olhos
duas rosas negras
sobre a noite
brotaram do sal
dois nomes agonizantes
inverteram o tempo
a chama dos adúlteros
iluminou meu caminho
fio de sangue 
parede de gelo
os dias e as noites
a mentira e os dedos náufragos
aquário de peixes mortos
as chaves são iguais
enigma desfeito
murmúrio terminal 
âncora inocente
aranha e grade delicada
ar pesado da dor
além do riso e da cólera
meus pés não mentem
sobre o sonho
estendo minhas asas
os véus não escondem mais a aliança
o monstro cospe suas máscaras
as primeiras brilham no escuro das palavras
as derradeiras engolem a própria cauda
abismo de lâminas e gritos
ouço os soluços nascidos do riso
não tardará a fuga da leveza
entre duas víboras
as rugas são desenhos do tempo
grave noite sem ar
roça a casa que adormeço
arde e recuso os quatro olhos sobre mim
indiferentes tremulam suas línguas
entre o espasmo e o mal
as ruínas investem
o esqueleto sobre o cavalo 
ocultado pela névoa-nada
engano tardio do desespero
desértico lugar da criação
caminho sobre afiada corda
imensa como as hóstias do passado
distante dali

Aprisionados nas fotografias, imersos noutro tempo, como todos nós, submetidos à impermanência, à finitude, ao imponderável, todos viveram intensamente, amaram, criaram seus filhos, outros se recusaram a tê-los, cuidaram do alimento diário, descreveram suas aventuras, lembraram às novas gerações quem foram seus antepassados, cultivaram a amizade, choraram, foram felizes, brigaram, se reconciliaram, estranharam o novo tempo - à modernidade que os solapava com seus absurdos e esquisitices, foram rigorosos como deviam e sabiam ser, plasmados no tempo dos costumes seculares, enfim, existiram em nossas vidas e eu ainda os carrego comigo, na memória distraída que me cabe, numa lembrança dos seus comportamentos segredada aos meus filhos, quando ouço alguém pedir "à benção" ou "bença", quando sei que caminhamos para onde estão, quando sinto saudades daqueles que convivi e dos que desconheci, guardo suas fotos e todas as informações que me foram franqueadas, as marcas afetivas e o desenho na espiral genética, o afeto, sobretudo o bom afeto.

Quando o abatimento me alcança porque olho para o lado de fora, corro para a frente de algo assim. Tenho que me salvar do mundo.

Eu não quero dizer quem é ou onde vive, nem que as pessoas saibam do nome ou sobrenome, do riso, das mãos dele sobre minha pele (torno-me bicho macio para as suas vontades), não preciso que aprovem, discordem, julguem, não uso lentes alheias - ele me olha e eu o vejo, estamos e somos apenas por nós dois. Ele me falou: "Ei, é assim que se ama, aqui não há a guerra". E eu que ainda guardava nos bolsos do meu casaco, umas balas de mosquete, caso a ameaça viesse roçar meu mundo, me assustei, corri para o meu sertão, que é tão belo quanto o meu amor e joguei as balas na correnteza do esquecimento. Quando o vi, ele estava sozinho, sei que estava só porque se alegrou e nunca mais parou de sonhar. Viu que durante anos, por saber sobre o mundo e os homens, me recusei a abrir a porta, não saí às ruas, não encontrei irmãos e amigos (exceto os quantificados nos dedos de uma mão). Diante da imensidade que ele é, abri a porta da minha casa, meu vestido, minha boca, libertei às palavras e "queimei meus navios" (como me falou meu irmão, antes de dar sua benção a esse encontro, dizendo que é clara, essa entrega mútua e sem volta, essa beleza dos nossos gestos, para quem nos assiste). Então, não é só paixão, dessas com prazo de validade, com a cegueira dos arremessos abissais, das barruadas inúteis, não é posse e prisão, não há em nós, a deselegância das grades. Eu não vejo a hora, dele poder ficar todo o tempo comigo, para que saiba o quanto é amado, para que não sinta sede, para que não morra sem mim. Tudo na vida, até agora, nesse assunto, foi esboço diante do meu menino, então, mesmo me furtando às comparações, sei que ele é maior e único - essa é a primeira vez que provo a mutualidade do amor e da paixão, nunca meus olhos, meu corpo e minhas mortes, viram essa vastidão e grandeza, fundo do meu oceano antigo. É o blues, o jazz e a bossa. É Moholy-Nagy, Monet e Cezánne. É mar, deserto e o beijo iluminado de Kilmt. Um dia saberão quem ele é, verão que eu falo a verdade.


Eu escrevo e desenho, como quem fala sozinha.

Ele estará sempre em tudo aquilo que em mim for sonho e desejo. Onde eu estiver, ele estará, como uma fúria, uma pétala, um sopro quente. Dele, é minha carne, minha alma, meu castigo, são os meus olhos, os meus rios, dele é a madrugada e o grito. Por onde ando, largueio a trilha, desvelo o verso, destino meus pés para os seus sentidos. Ele corta as fitas, me tateia e me escuta, se oculta, me revela e segue comigo. Ele é a beleza que silencia, porquanto, tudo diz, do corpo e da lâmina, do espelho de bruma, da chama e da coragem de chorar comigo. Irei com ele até o dia último, quando deitarei e dormirei no tempo sem tempo. Dele, é minha casa, são meus cães, é minha boca e o que dela sai. Dele, sou eu, alguém que descansa de uma longa espera e toda a falta. Somente dele, são minhas mãos e os meus líquidos. Nele e por ele, as palavras, agora fazem sentido.

Hoje não o mimei como ele merece. Digo apenas do quanto somos fortes e leves juntos, brincamos como crianças, do quanto confiamos um no outro e não sentimos medo. Ele sabe que é amado e, nesse momento, isso é o que importa (também sei que sou).

Todos eles estão mortos, aqueles que esquentaram seus espetos na brasa, suas armas de fogo e a acariciaram, deixando em sua pele, marcas azuis. Também os que desfilaram vaidosos, certos de chamar sua atenção, mas ela estava distante dali, no colo do homem amado. Depois dele, não ficou sequer um homem vivo, em idade núbil, exceto os amigos e parentes. Ela pediu que ele cegasse os seus vários pares de olhos, porque assim o quis e, rogou que a subtraísse do campo de visão alheio, levando-a para dentro si. Ela mesma buscou os espinhos (naquele vasto e expansível pomar), e os deu e pedindo-lhe que os espetasse em cada um dos seus olhos, deixando apenas aquele par que o enxerga. Ela percebeu que desse modo o veria pleno dentro de si, ela soube que era amor quando o reconstituiu em sua memória - não aquela que surge como racionalidade ou imaginação, mas a que fica ardendo no corpo. Compreendeu os silêncios. Sabem que tudo aquilo que possuem é esse olhar um para o outro (sempre e até o fim).

Os lugares que eu queria estar com ele.
Minä rakastaa sinule, sinä on voima ja aurinko. Minä olen kulma, sinä on tuli. Rakastaa toteus. Olet erikoinen ihminen elämässani. Minä uskon me on kouru. Me voimme ole isonpi silmät maailmaa, silmät maan. Minä on onnelista sinule. minä heilaa sinä. On mahdollinen katu ikkuna. Pusus.
(
Riikka Kehusmaa ja Tiina Maarit Kehusmaa errei muito? Ainda aquelas aulas de Äiti e de Issä, Minä rakastaa poika vapaa, ilöinen ja paljom hyvaily, mieheni tuli toteus. Corrijam-me, é um sacrifício hoje em dia,escrever um texto em suomalainen rsrsrs). Lembro de cantar Herra Petäri com Issä (ainda tenho a letra e a tradução, se quiserem). Minä ei puhu suomalainen kaikki hÿvä.Hahaha (esse lugar foi escolhido porque ele adora).

É preciso que eu diga, desconhecendo o futuro e, ora, me estranhando nas invenções que carrego como tesouros íntimos. É preciso que eu diga que o presenteei com minha inocência primeira, meu olhar e os meus dias. A última coragem verdadeira de acreditar nas palavras do outro. Tudo que sinto, nesse sentido, é dele. E, é tanto , tão avesso aos dias escuros do nosso lugar. Eu escolhi meus infernos. Como atrelá-los à vida, e como fugir deles. Eu não escolhi ser o alvo do mau afeto, essa escolha nunca me passou pela cabeça, pelos meus braços e abraços, pelo meu ventre ou cérebro. Eu fui, simples como deve ser o amor, agarrada à bóia da impermanência. Soube disso depois de ler o portal e lá, deixar toda a minha esperança. Não o amo à toa, creio naquilo que parece possível além de nós: o que alavanca o peso do viver e o desatrela da normose que ameaça os quereres. Não quero a esperança, o dinheiro, o medo de achar que o tempo incide impiedoso em cada um dos meus gestos. Sonho outras coisas, o que parte daqui e traz todas às minhas mortes e os meus desejos. Ele me deixa deitar no que acredita ser o amor. Ali, eu durmo e descanso do mundo.

O que é exatamente dormir?
Com ele é vigília e fuga das palavras aprisionadas durante toda uma vida.
Dormimos no outro, em camas diferentes.
Em lugares distintos, noutros braços.
O que é exatamente dormir?
Cuidadosamente, ele sustenta minhas pálpebras e canta para mim.
Também viro essa onça pequenininha.

O sagrado nasce das primeiras fantasias do homem sobre Deus, do medo da morte e de sua incompreensão, dos enigmas que o levam à sabedoria anterior à crença. Funda-se no murmúrio primeiro de que deverá existir um inventor para aquilo que vê, sente, teme, ama, dança e sofre. Na arte de tocar quem o toca através da imagem, pele da palavra, surge o homem, errante no território do mistério que, enfim, adentra o espanto da vida e aí se deita e dorme e sonha com o conhecimento, que por sua vez, também o sonha. Nada que se diga sobre o sagrado, vale um grão de areia da terra, uma gota d’água, uma torre que pareça com aquela arquitetura que o fulmina e, num segundo deixa-o exposto ao tempo, para que ele, trespasse sua loucura; tocar o lugar da lucidez que, sob o rio, adentra o inferno das palavras, embrenha-se na terra, torna-o vasto como homem - até que tenha mil filhos, que plante seus alimentos, que se ajoelhe diante de tanta luz, que ascenda através da escada d’água e fogo, que seus joelhos dobrem-se diante da vasta gratidão e possa ascender por ela, até o reconhecimento daquilo que o tornará pó (e viajante de um tempo misterioso). O homem não esteve presente ao abrir, pela primeira vez, os seus olhos e não estará quando fechá-los para sempre, apenas no breve intervalo, quando o ar encherá seus pulmões e dirá da sua dor, da sua vaidade, que o desviará da inocência dos gestos, da concisão de sua existência, daquilo que o entristece e o incinera, da sua cegueira e vontade de dançar e rir. Mortos desde os extremos, para dentro e para fora, estranhos, com dentes e línguas que se matam e se beijam, seres de palavras múltiplas, imensas, infindáveis, estranhos signos que tocam o desejo e o dever, destemperos e irreflexões vãs, inquietudes e vagas de açúcar, de maresia. Sopas de músculos e compreensão de lentilhas, de grãos até o instante do retorno ao imenso labirinto.

Diálogo de uma praciana com uma sertaneja da gema:
- Como está o seu pé?
- Sequinho, dando chuchada, pinicada dentro, que quer dizer cicatrizando. Às vezes, tenho ate uma pilora, andando, mas não caio.

Uma árvore pode ser maior do que uma vida, como um instante de fuga, como se o horizonte parecesse brasa calçando os pés ardentes - não os pés ensinados, os quemergulham nas águas do desassossego, aqueles mesmos pés que desconhecem o futuro, ainda sobre a boia da dúvida. Tempo, olho, raiz, mar sumindo de repente sob o espanto do náufrago, estranhas asas de cera e de giz, lava, folha calcinada, alvoroço contido, minutos se desdobrando em horas que se estendem no tempo, no tempo, no tempo. Tudo o que parecia impossível, já estava ali, diante do medo e dos muros. Naquele dia previ aquele amor, com olhos de estrada, pude encontrar calma no meu coração de mãe. Não, eu acredito no sorriso mínimo quando se tem um lugar composto das invenções de areia. Há que se guardar esses dias, essas surpresas e os olhos atentos ao mundo, essas imagens que levam à imaginação diversa.

tarda a dor
o olhar retorna
lâmina cega
a faca não sangra
branca a carne
perverso o mundo
vermelha a lua prossegue
tranca-se a porta
furta-se o mantra
atravessa-se o mapa
esgarça-se a trama
trespassa-se a espera
roça-se a espora
no rastro da palavra
a alcança

Um dia, os segundos serão minutos, os minutos serão horas, as horas, ah, essas se tornarão dias (não aqueles quando as estrelas cadentes atravessavam a garganta buscando palavras e silêncios graves), um dia, os dias serão o próprio tempo, virando, em um sopro, os meses, anos, até perderem de vista a beleza que mora no improvável. Eu não estarei mais ali. Estarei ao lado dele.

E você e eu escalamos, atravessando as formas da manhã
E você e eu partimos ao sol para alcançar o rio
E você e eu escalamos, mais livres, em direção ao movimento
E você e eu passamos sobre vales de mares sem fim

O desencanto substituiu lentamente a violência daquele campo indizível, daquele muro suspenso e despercebido que se postou entre um e o outro. As palavras se esgarçaram sem ressonância. A incompreensão da linguagem, torna, ao rés da porta, a água e o menino. A escuta, no seu campo do afeto, é cheia de rasuras, de desalinhos, de estranheza como se fossem palavras desconexas, perguntas apartadas das respostas. Os lugares, os ritmos, os desejos, tão desafinados, desiguais e injustos, cortaram o choro e a garganta. O silêncio, que talvez seja aquilo que sobrou nessa confusão, segue ensurdecedor e aflito. Frágeis diálogos permitem que despenquem os espólios breves, os abraços tímidos, a delicadeza que andava sozinha em um caminho de mão única. Desfaz-se a lágrima, sabendo-se inútil, a força vai aos poucos voltando para seu lugar de origem. Reduz-se tudo aquilo que foi visto no olhar inaugural, ali, diante de todos, meu e dele.

Mais de quatro dezenas de dias
E o tempo engole minhas manhãs
Esqueço e abro as gavetas
Retiro as fotos
Incendeio o único abrigo que restou
Levanto e a miragem de uma espada suspensa me acompanha
O riso não resiste apenas às palavras
Jejum de respostas que não vêm
E antes do sono
Eu fecho os olhos
Agora giro na interseção estranha
Nenhuma lágrima surge para diluir o nanquim
Vejo as nuvens de açúcar e as formigas famintas
Não hesito em arranhar minha garganta
Não é grito
É desenho na areia, graveto, pedra angular do devaneio
A espera é arranha-céu de fuligem
Olhos distensos, vaga-lumes agonizantes no chão
Varro meus pés
Retiro hóstias de silêncio e as mastigo
Enquanto esqueço o que atravessou os meus lumes
Apanho o pássaro abatido que ainda respira
Faço um salvamento inútil
Deito-o no banco da praça e choro
Ainda mais pela fratura esperdiçada dos ossos dos sonhos
Não durmo, nem acordo, limpo chaminés antigas
O atraso dos precoces sussurros
Trouxe-me até aqui
Lugar desconhecido e inóspito
Não sei lançar fora o amor
Dentre tantos recontos
Eu vi que não podia mais fugir
Que era ele, tão belo e célere
Digno do meu legado de integridade e dor
É brando o desejo embrulhado no lenço
Que uso para cobrir o rosto
Para ocultar as declarações de vera
Não sei lançar fora o amor
Que carrego e escondo
Dos dentes limados do ressentimento
Guardo-o e fecho os seus olhos com minhas mãos
Para que não veja meus cílios incinerados
Para que não mire ainda mais os desertos antigos

Há o tempo no meu corpo, aquele que cravou em cada um dos ossos que possuo, uma minúscula abelha, que circundou todos eles, com fios de existência e espanto - esse tempo que nos assalta, nos cansa, nos faz renascer após cada morte, então, eu caminho sobre minha memória tantas vezes (re)construída. Sei quando Sísifo se aproxima, cansando meus braços e minhas pernas, quando olho através da tua transparência e vejo os teus medos, quando o ritmo descompassa pela inabilidade de lidar com realidades hostis, onde (in)conformar a potência do afeto. Eu, por exemplo, o levaria para sentar-se à volta de cada uma das fogueiras que posso erigir e acender para distrair-te. Aprenderíamos a observar juntos, a fuga poética das palavras, seus vôos, como elas deixam o céu da boca, a garganta e o ar que nos mantêm vivos. Há outro tempo, aquele que o corpo parece fundir-se com o desejo, das coisas mais simples às mais estranhas. Hoje eu fiquei espantada com uma palavra desconhecida que tu me disseste, respondo: Sim, eu sou! (tu também és).


Em um só dia, a compreensão da recusa em pisar as areias ferventes extinguiu sua força. Ficou uma pedra em seu lugar. Decidiu pela maciez das nuvens e pela grandeza de outra imaginação. O dia em que sentiu suas asas brincarem de ventania, foi o dia do grande susto. Conhecera histórias de cera e calor, não arriscaria repeti-las. Acordou com o flagrante dos maus afetos tentando direcionar seu voo, jamais havia desobedecido cada um deles: aqueles vindos da solidão, o ciúme, a tristeza, a angústia, a memória dos cravos, os arremessos dos abismos, enfim, jamais havia olhado para eles com a audácia de ser amada, nunca havia sido amada. Descobrira que eles furtaram todas as suas idades, invadiram o lugar vago do amor, onde se refestelaram, onde subtraíram suas reservas de força, de onde saíram vencedores, esbanjando suas ilusões distantes. Agora não mais, nunca mais. Ela estava diante dele, do seu amor primeiro.

Ao longo dos séculos, breves ou abundantes, havidos, entressonhados, alimento dos vícios, das serpentes, dos gênios. Outros, inventados, entregues à má sorte, cilíndricos, parvos, tecidos no improvável gesto. Quantos mortais, violentos, tácitos e arrebatadores d'alma? Terríveis, recônditos e suaves como a morte. Imóveis nas telas de linho, animados no cinema, circulam nos automóveis, nas estiagens do campo, pulsam dentro das caixas, dobrados em minúsculos papéis, segredados e escritos, no interior das calças encabuladas, túmidos, contidos. Erram nas estradas a pé, nos vôos medrosos, nas gangorras dos oceanos . Agarram-se às notas e dançam ao ritmo dos tambores gastos, dos acordes agudos e graves, das teclas alternadas em p&b, nas máscaras e caretas. Somem e cortam gargantas, duelam, rasgam vestidos, esfolam o organdi antigo. Tingem de sangue, quando em perversas balas, lâminas, dentes, gritos, grades, risos. Suspendem em cordas e bancos, balanços últimos, liláses, cadáveres frios. Ingredientes, mãos, doces e salgados, fogo e horizonte. Limite, poema, loucura, sobrevivência surda e desértica. Gordura, ossos, lágrimas, unguentos. Princípio, onda, estranheza e fim. Invento, arco-celeste cerzido nos pássaros, régua, número, cinzel. Século e imagem. Animal, ocidental, demente, sedutor, insuficiente, medida de quatro palmos e três sementes. Brincadeira de vulcões, tornados azuis, ondas gordas de conchas e sal, afogamento. Dentes imensos, saliva acre, assobio das pedras, movediça lama, cataclismo, ouro inútil, pão, peixe e corrente. Pneus, portas aias, molas, plumas, costura, lona, corpo de balé, exaustão, controle, livros doentes. Sinetes, ruídos, vermelhos acesos, olhos marejados, gemidos, lugar comum, goteira, leite, cegueira diante do tempo. Dinheiro, fome, cor, fúria, canteiro. Gravidade, placenta, veludo, espelho labiríntico, anseio. Silêncio, chave, vazio, sujeito, furor, saliva, paramo, fosso, fio, claros, escuros, futuro, lugares inexistentes, canais d'água, a cabo, satélites, nuvens e versos. Amarelos enfurecidos, tramas desfeitas, pontes e chaves, banco de praça, estilete e cascas das árvores, estrada, fosso, indiferença. Olhos e mãos. Terço e óleo ardente.

Pronta pra cantar (Caetano Veloso com Maria Bethânia & Nina Simone): Você sabe o que é se sentir mimada? É ganhar essa música, no meio de uma conversa, toda ela tecida com as palavras que nunca me alcançaram antes. Onde estão minhas pantufas de nuvens?

O gesto se distancia do arame, do tronco - árvore do silêncio, destece teias de barbante, escapole, entrega as armas feitas de papel e tinta, as imagens reordenadas que antes distraiam e traçavam (velozes) distâncias mínimas, entre a boa memória e o presente. Ora, esse turbulento aceno, resguarda o lacrimário fazendo-o esborrar, numa mímica do afeto e, desnortear o metal seja ele, robô ou apito, trem ou bacia. Linguagem potente que intimida os ícones, os cegos de lama, os desavisados dos templos. Passos largos, olhos abertos e tristes dos que ficam, o medo costurando o tecido roto da descrença (em alguma mudança possível vinda dali), da concha, do risco, dos pés sem chão, do temor dos relógios de ponto. Cada vez mais, se propaga esse lado em mim, que desteme e dança, que segue a música e ri. Não é preciso o muro, o fosso, a guarita de aço, a tesoura e o cálculo, contrário a esse pelo que ergue-se diante da palavra macia, do alumbramento, da consciência da velhice e do além-tempo, que parece um arrepio gelado de anunciação das mortes inúteis. Nada contém essa água que molha o gesto, que funda templos invisíveis e fortalezas inventadas, quando recomeça e busca a turva ilusão da liberdade.

Muda, como uma semente que permanece viva, rompendo o silêncio doentio dos dias. Semeio palavras precisas na exígua terra. Morro e broto na dor do sertão. Sobre os dias primevos, dessa floresta tardia, ninguém me verá. Sempre seguirei minhas estações, ainda que me doam as palavras ou a ausência delas. Não há quem catequize meus alvoroços. Brinco, fugindo do horror. Desde sempre, estive ali, nua e inocente.

Há aquelas que vêm junto com o sono, quando nenhuma caneta, nenhum gravador, sequer uma areia e um graveto se acercam de nós. Caem perfiladas, o texto pronto e, pela manhã, ao acordar, vejo que se foram, ansiosas, não esperaram os vestígios da memória. Então, as palavras somem para nunca mais tornarem. Mas, ontem, tentei apanha-las enquanto fugiam e as aprisionei, como fiz com os nostálgicos mandarins, encontrei teias e fios esgarçados do lençol, então as amarrei ao espelho da cama. Hoje acordaram silêncio e farol. Fiz tudo isso para dizer que ontem, li o texto mais belo até hoje entrevisto. Li cada palavra e o silêncio agudo. Tantos pontos que fariam tropeçar o olhar, mas não, não deixei de compreender o diálogo entre o autor e seu amigo Joseph B. Era música, silêncio, delicadeza, licor, transparência e solidão, dessas palavras inteiras que se nos fazem voltar os passos, para entendermos ainda mais o percurso da amizade, da palavra e do tempo. Vi que meus olhos foram iluminados pelo sentido de cada uma daquelas palavras, libertadas assim que levantei e lavei o rosto. Como uma conversa. Como o tempo.

Desde pequena ela começou a olhar o rosto das pessoas, não olhava o todo, mirava os olhos mais tempo do que o nariz, a boca, as orelhas, as sobrancelhas, de alguns, as rugas e toda sorte de expressões. Durante tantas décadas, passou a ver palavras nos lugares de cada traço, hoje lê com tamanha facilidade às pessoas que, sabe quando são de vera ou quando mentem, se são boas ou más, se olham as estrelas ou preferem ler os letreiros das ruas, distingue os que cedem às dores, esmorecem, plantam seus pés nos solos seguros, temem a fome e o frio, criam raízes resistentes que partem suas asas, que os impede de voar. Reconhece a uma grande distância, os que compreendem o tempo e a velocidade, ri com aqueles que vivem suas intensidades. Às vezes, ela fecha os olhos porque consegue ver as duas coisas, em uma só pessoa. Com os olhos cerrados, chora.

Era apenas um segredo dentro do outro, como sua fotografia, Senhora A. e, ainda assim, parecia uma guerra, uma corrida, uma multidão enfurecida. Mastigar e engolir os sonhos alheios, soltar flores de ferro e morte sobre outras terras, é algo deselegante e desolador, não acha? Não há ponto de chegada para a ambição daqueles indivíduos, é uma fome imensa, desconhecem os dias de silêncio e êxtase que algumas reflexões nos concedem. Farejam os metais, as jóias e a película que os reveste nos dias de festa, seguem as carruagens e se empoam, às pressas, fingindo que não possuem escamas e que suas línguas bífidas são inofensivas. Minha querida Senhora A., porque às vezes, nos sentimos como bebês envoltos no sono gelado da eternidade? Sim, nós que respeitamos seu voo último, enviamos um abraço da cidade murada que habitamos, e de onde quase não saímos.

Naquelas vitrines, diante das quais as bestas salivam, os risos histéricos miram outras bestas, os maus se reúnem para admirar os objetos, as filas circundam os quarteirões para remediar as mentes perversas, o espetáculo deprimente acontece. Ali, ela avistou instrumentos estranhos, rudimentos que resultam nas medievas dores. Naqueles prados, porque tantos bárbaros? Há homens afáveis que ali vivem, esses se indignam com a cólera dos seus vizinhos, com aqueles que querem cegar os padres, estuprar as moças, atingir mortalmente os jovens, alvejar os transportes, amedrontar as crianças e desonrar as viúvas. O mundo tornou-se um lodaçal sem fim, o ódio move cada um daqueles doentes, daqueles perversos, dos estúpidos homens que perseguem, apedrejam, atiram e esbravejam suas pragas íntimas, contra aqueles mesmos que pretendem levar alimento às bocas famintas. O que fazer para cessá-los nessa hora?

ME.MO

me.mo: desde os dois anos, se apaixonara por aquela herma e pelas castanholas, então tomou conta da praça na frente da sua casa. ia brincar de retirar as folhas, levava todos os brinquedos para lá. deu de querer dormir no banco de cimento, até que escorregou e na ladeira mínima do desnível da rua, aprendeu sobre os abismos.

me.mo: três anos. analfabeta, aprendeu a escrever as três primeiras letras com um lápis de cera, rabiscou detrás de todas as portas da casa. acordava cedinho e aguava as letras. achava que elas cresceriam como árvores e ela colheria os frutos, os comeria, aprendendo assim, a ler. o balde era um peixinho laranja.

me.mo: aos sete anos ganhou um caderno de seis matérias e canetas de várias cores. anotou perguntas e respostas que poderiam surgir nas brigas da escola. fez seu primeiro "caderno de desaforos". a letra ainda era um garrancho. era rápida para não engolir o choro e ninguém sabia por quê.

me.mo: fez um píer sobre o açude, queria que ela soubesse sobre a paciência, a dor dos peixes e o risco do anzol. nove anos. desenha anzóis até hoje.

me.mo: opala cor-de-vinho (tempo cor-de-cor), estrada, espera e uma menina pedindo espaço na bagagem pra levar as pedrinhas dali, dos acostamentos sozinhos. hotel das freiras, lugar onde congelam imagens. óculos da mãe, roupas esquecidas na bagagem de mão. uma lagoa inesquecível. lugar destoante do ser-tão.

me.mo: queria usar a farda de gala com um brasão."apenas os afinados podem usá-la, os que cantam no coral", ouviu da secretária do colégio. falou com o diretor (que era padre), ficou decidido que ela vestiria a farda, aprenderia todas às músicas, mas teria que dublar, de tão desafinada que era. lia-se "veritat et vitae" bordado com linha dourada, em seu peito. ali, no palco, ela jurou que sabia cantar, mesmo cantando muda.

me.mo: olhava os ovos coloridos das vitrines dos postos. a mão, fora da janela, brincava de onda e vento. atentava a todos os detalhes, os mínimos riscos na areia, as águas-vivas e as nuvens. tudo era viagem para os olhos acesos da menina.

me.mo: ficou espantada ao ver que existiam rosas azuis no roseiral de sua mãe, um labirinto de perfume e cor. oito anos. comeu rosas muitos anos mais tarde.

me.mo: nem fé, nem religião. talvez quatro gotas de curiosidade, ímpetos sociológicos, encantamento pelas cores d'áfrica, medo de "alma-do-outro-mundo" por causa dos contos de assombração que ouviu na infância, enfim, nada de culpa, fanatismo ou loucura. ainda bem que viver assim, a salvou das obrigações dos domingos e dos outros dias.

CONTO MÍNIMO


Eu conto o mínimo: Nasceram com dentes, quando ela os viu, notou que eles cresciam e tornavam-se muito finos, entrou em desespero. O que nela teria limado àquelas presas? Perguntava-se diariamente, até que um dia, perdeu a própria língua. Simétricos, quase gemelares, trinavam e partiam em direção à sua pele, ao seu ouvido, ao seu ventre. Quis fugir, mas não deu tempo. Alguém enxugou o chão, onde adormecera líquida e encarnada.

Eu conto o mínimo: Primeiro foi o segundo volume de um livro, novamente subtraído após ser reposto, em seguida, foram as lágrimas de cristal que pendiam das árvores, mais livros, filmes, cravos, sem falar naquilo que caiu no esquecimento, enfim, com todas aquelas imagens gravadas pela câmera e com a memória triste, ela se voltou e seguiu noutra direção.

Eu conto o mínimo: O silêncio dos corredores, o grande mal daquela cruz, o rigor que dilacera o riso e o desejo, as longas camisolas dos banhos, recentes modelos alvos da crueldade, a histeria próxima que obrigava às mulheres a abrir as pernas e fechar os olhos - escuras e desmemoriadas imagens da vida, todas que sonharam na última guerra havida, todas elas, tão meninas, parecem hoje, ter estudado na mesma cartilha: o horror, a perversa ilusão dos ditames do amor, nenhuma delas pode salvar as gerações seguintes, por dor, ódio, distração, inveja ou cegueira. Sim, cada uma delas, enlouqueceu nos seus estranhos delírios, plantados onde a palavra esquece o gesto e se aparta do tempo.

Eu conto o mínimo: Havia uma manivela, a corda em si, serpentina tensa de bronze, estava quebrada há muitos anos, mas os minúsculos animais mastigavam as esferas com imagens de cérebros mortos, rindo sem cessar. Não nos restou outra coisa, senão imaginar a música e girar a engrenagem, sonhando em círculos, até morrer.
*
Eu conto o mínimo: Transcrevia na pele, inúmeros bilhetes de morte, narrava as atribuições de cada um, o cuidado com os cães, os dias de regar a planta de cera, dois ou três desenhos desesperados, a repartição justa do afeto, os dotes imaginários, porque nada possuía senão a caneta, a pele e a lâmina herdada do avô.

Eu conto o mínimo: Passava e olhava para dentro da janela, passava diariamente e a janela estava sempre ali, passava logo cedo, quando o pêndulo tangia os insetos na hora do café, passava e enxergava apenas os sapatos e as pernas, não conseguia ver todo o pêndulo. Quando chegava na torre do silêncio, observava durante horas o meticuloso nó da corda gasta e o banco de madeira escura, adormecido na friagem do ladrilho.


CYANE PACHECO – Reunião de textos, fotos & expressões da artista plástica & visual Cyane Pacheco. Veja mais aqui e aqui.