terça-feira, abril 03, 2018

TÍTULO PROVISÓRIO DE VITAL CORRÊA DE ARAÚJO


POEMA DOS SEIOS

Regatos
Eu os sorvo
Milhos túrgidos
Eu os debulho
Cordas violáceas
Eu as vibro
Vibro, vibro
Vibro.

REVISTAÇÃO

Numa casa
Estavas
Nas paredes
No balde
Dos açides
Amontoados
Trapos
De
Mim
Dispersamente
Fui velho
Para ser infância
As minhas amadas,
Elas não me amavam
Fui infância
Para ser velho.

INPS DO POETA

Assino o ponto da poesia,
Dou o exato expediente do verso,
Faço petições rimadas,
Memorandos metrificados,
Avisos-livres.
Recebo remuneração de improviso
E doo liras ao instituto.
Decreto sonetos, legislo loas.
Pago taxa do verso previdente,
Tenho diploma de ritmo
E adoro o odor da flor do Lácio.
Sou poeta laureado por concurso
E tenho minhas atribulações constitucionais.
Primo ser poeta aposentado,
Pois passei a vida toda
Feito canção e acordando as manhãs.
Peticionarei ao poeta presidente,
Pois tenho tempo de serviço na poesia.

DIDÁTICA DOS DOGMAS

Creio na cremação,
Nas santíssimas engrenagens,
No imaculado dos maquinismos,
Nos alicerces dos edifícios,
Nos astros do poço,
Nas salsichas conjunturais.
Creio na cromação,
Na pria, no chumbo, nos autos e nos acessórios,
Nos epitáfios dos vândalos,
No apodrecimento dos eruditos,
Na volúpia do vanádio,
No amor plástico,
Nos ofendidos e nos humilhados,
Na veemência dos mutuários,
Nas escrituras registradas.
Creio na vida eterna,
Na morte certa,
Na liquidação.

CACTOSCÂNTICOS

Cactos cantos
Secosáridos
Dos sertanejos
Poemas e cardos
Espinhos e litígios,
Agruras,
Dedos acúleos,
Olhos sem fim,
Como a planície morta
Secas, cismas,
Perdidão:
Sertão
Raízes de ruinas
Futuro de graveto,
As chamas do presente,
Antes de tudo, a fome
A fome,
Depois a fome,
A fome
Antes,
A dor de cada dia,
A lágrima, a alegria
É seca a face
O céu é seco,
É seco o rio,
O rumo é seco,
É seca a sina
E a cacimba
Que também deixou de chorar.

A CONSTELAÇÃO DO PÚBIS

Entre coxas,
A constelação do púbis,
A savana, o alfenin, a sede
Entre sebes,
A senda de ti,
A rosa oclusa, a semente futura
Entre rios,
As mãos, o fio,
A fonte das sedes
Entre seios,
Violo, mordo, sugo
Lábios e vias lácteas
Entre coxas,
O sexo de plástico,
O orgasmo de náilon
Entre cactos,
A madona de xiquexique,
O sexo xerófito
Entre seios,
Sóis siameses,
Sou incedios
Entre coxas,
O estilete no regaço,
O estigma, o enigma de músculo
Entre forjas,
A orgia industrial,
O sexus, o plexus, o nexus
Entre pernas,
Joelhos seculares,
Séculos ajoelhados
Entre coxas,
O nu, a luz, o lábio,
A rubra sede, o sonho e o silêncio
Entre sêmens,
O secreto de mim,
Eu segrego em ti
Entre alpas,
O açude rupestre,
A cisterna, a cacimba
Entre vales,
Seares e segas
E sexo sazonado
Dentro de ti,
Astros esplêndidos,
O fruto, a fome,
O infinito
Entre coxas,
A constelação do púbis,
Em teu corpo,
A cimitarra e o lume.


EM TEU CORPO DE CARNE E CLARIDÃO

De carne e claridão,
À sanha dos desejos das mãos,
Esplende teu corpo e eu espero
Teu corpo,
Mar e leme,
Ilha, solo úbere de gaivotas,
Campo de espigas, enigmas,
Teu corpo,
Uma água esbatendo o cais,
Salpicando-me
As mãos que te desejam e sangram
Em luz e madrugada,
Lavradoras da terra
Onde és plantada,
Até a eternidade dos frutos deflagrados.
O desejo é ter mãos ou sonhos?
O desejo és tu ou este desespero de poema?
Em teu corpo,
Prende meu desejo e navega,
Além das mãos
No aquém-mar do ventre.
Teu desejo, esse meu incêndio,
Ilha e solidão?
Sêmen ou semeação?
Meu amor
É maior que a tua sede,
Meu corpo de pescador perdido
Procura os horizontes e o peixe,
Com quem divides
E desvendas o mar
Teus seios,
Aves gotejantes dos céus,
Cumes atiçados por voos
E eu,
Plástico amante telúrico,
Enraizado entre pedras
Nascidas na planície.
O amor lavrou a morte
E minhas mãos te escavam inutilmente.
Chobia na terra escurecida,
A tarde espiava
Os últimos visitantes de teus púbis,
Eu te expiava
E fiquei submerso
No sonho tão pássaro,
Como pedras que corroem
As mãos do náufrago.
E corri em busca da brisa,
Na sede de partilhar
Do teu corpo alisio.
Eis a tempestade,
As distancias desencadeadas,
E o meu teu corpo mutilado em mim.
Fugi de teu corpo,
As mãos são partidas
E eu espero
A frutificação dos dedos, o desejo,
A esperança tornada pedra,
O gesto de te tocar eternizado,
Eu te espero em todas as manhãs
Para o embate indomável dos corpos
Amantes e desesperados.
Eu espero novas primaveras
Renascerem em teu ventre,
Eu espero
Teu corpo
Me espera.

PÃO

Jamais te dedicaram
Um simples verso,
A voracidade é maior
Do que o lirismo
Devoram-te e não te veneram
Mas doravante, pão,
Terás poemas
Penetrarei
Com pinças de Virgilio
A tua cereal entranha
Irei,
Além da tostada forma,
Do conteúdo
Alto-proteico
Viajarei,
Além do vulgar
Nível alimentar,
Ultrapassando as fronteiras
Da padaria
Não vale a filosofia do padeiro,
Nem a metafísica do merceeiro
A sociologia de tua massa
É tão sublime
Quanto a das multidões
Irei, além, pão,
Do nível comum
Do entendimento ávido
Dos a quem te doas
Heroico, desprendido,
Suicida, alimentar
E tocarei a última
Substância do trigo,
O germe ínsito,
A própria
Consciência cereal,
A paônica essência
Ó pura concepção de Ceres,
Farei um verso
Ao teu criador,
Escultor, pintor, talhador,
Que te forja perene
Em gesto e fogo
Da espiga,
Brotou nutrida
A civilização
Ter
Ou não ter pão,
Eis a questão
E após a lira,
O joelho respeitoso
Ante a
Congregação de espículas
Que se faz espiga
E humana substãncia
Ó espírito moído
Dou-te à devoração
Este poema faminto.


TÍTULO PROVISÓRIO - É o primeiro livro do poeta e crítico literário Vital Corrêa de Araújo, Prêmio Othoniel Menezes de Poesia, publicado em 1977, pela Fundação José Augusto, de Natal – RN. Veja mais aqui, aqui e aqui.