LUIZ ALBERTO MACHADO

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sábado, julho 26, 2014

ENTREVISTA FREDERICO BARBOSA

Frederico Barbosa é poeta pernambucano. Cursou Física pela USP e é formado em Letras/Português. Foi crítico literário no Jornal da Tarde e na Folha de São Paulo, consultor e redator do volume Help! - Literatura, publicado pelo O Estado de São Paulo. Leciona Literatura, Texto e Redação no Curso Anglo Vestibulares. É consultor técnico das coleções Ler é Aprender, do O Estado de São Paulo; Livros, de O Globo; e Biblioteca ZH, do Zero Hora. Dirige atualmente a Coleção Alguidar. Publicou os livros Rarefato (Ed. Iluminuras, 1990), Nada feito nada (ed. Perspectiva, 1993 Prêmio Jabuti), 5 Séculos de Poesia - Antologia da Poesia Clássica Brasileira (Landy Editora, 2000), Contracorrente (Iluminuras, 2000), Louco no Oco sem Beiras - Anatomia da Depressão (Atliê Ed, 2001), Na Virada do Século - Poesia de Invenção no Brasil (Landy Ed, 2002) e Cantar de amor entre os escombros (Landy, 2002).
Luiz - Vamos começar por Pernambuco: como você coloca uma observação entre o Pernambuco da sua infância e o de hoje? De que forma Pernambuco contribuiu para a sua formação poética?

Frederico - Tenho uma relação curiosa com Pernambuco. Vivi em Recife os primeiros seis anos da minha vida. Só isso. Depois, em 1967, vim para São Paulo. Costumo dizer que fui exilado, ou meus pais o foram, depois do golpe militar de 64. É impressionante a quantidade – e principalmente a qualidade – dos intelectuais, que, como eles, deixaram Pernambuco pouco depois do golpe. Dá para imaginar como seria o Recife se lá tivessem permanecido intelectuais como Sebastião Uchoa Leite, Luiz Costa Lima, Márcia e Jorge Wanderley, Ana Mae e João Alexandre Barbosa (meus pais) e tantos outros, na época muito jovens, que vieram para sudeste naquela época?

Mas vou a Pernambuco praticamente todos os anos, durante as férias. Nos últimos 15, pouco tenho ido ao Recife, fico mesmo em Tamandaré, praia que fica 90 km ao sul da capital. Costumo dizer que a minha cidade é São Paulo, mas meu estado é Pernambuco. Acho que dá para entender. A cidade que eu conheço melhor é São Paulo, mas pouco conheço do Estado de São Paulo. Quando tenho qualquer oportunidade, pego o carro e vou “subindo” até Tamandaré.

Na realidade, nos últimos anos o meu contato com Recife vem crescendo bastante. O maior culpado por isso é o poeta, cineasta, professor, agitador de todos os baratos, Jomard Muniz de Britto. Depois que o conheci, passei a me interessar muito mais pela cultura e pela cidade do Recife como um todo. Até escrevi um poema em homenagem à cidade, quando o Recife elegeu João Paulo prefeito. É dedicado ao Jomard e procura dialogar com o grande “Evocação do Recife”, de Manuel Bandeira. Eis o poema:
Vocação do Recife
para Jomard Muniz de Britto

Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois –
Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância
Manuel Bandeira – Evocação do Recife

Recife sim
das revoluções libertárias
da teimosia ácida
do contra.

Não o Recife da minha infância
de golpe e exílios
gorilas e séquito
de vermes venais.

Recife sim
da coragem Caneca
da conscientização neológica
das lutas ligas lentes
do sempre
não.

Não o Recife sem literatura
no papo raso da elite vesga
a vida mole e a mente dura.

Recife sim
poesia e destino
na memória clandestina
de sombras magras
sobre pontes e postais.

Bandeira
sutil na preterição sim.

Clarice sim
frieza entranhada
na estranheza de ser Recife.

Recife sim
na literatura navalha
só lâmina solar
solidão sem soluços
só suor de João Cabral.

Recife sim
nos cortes certos
de Sebastião
contra a metáfora vaga
e o secreto.

Não o Recife sonho consumo
de turistas e prostitutas
na praia do sim
shopping sem graça
de Boa Viagem.

Recife sim
que em Nova Iorque
se revê
Hudson Capibaribe
ecos de Amsterdam.

Recife rios
ilhas retalhos
retiros velhos
reflexos de Holanda.

Não o Recife que revolta
na extrema diferença.
Não o Recife que expulsou
sua própria inteligência.

Recife sim
que se revolta
vivo.

Faca clara
que ainda fala
não.
Luiz - Como você observa a linha que passa de Ascenso, Bandeira, Capiba, João Cabral, até Antonio Carlos Nóbrega, Lenine, Alceu, Manguebeat?
Frederico - Há inúmeras linhas que podem ser traçadas quando se pensa na literatura produzida em Pernambuco ou, como é o caso de Bandeira e, durante muitas décadas, de João Cabral, por pernambucanos que vivem fora do estado. Na minha linha entrariam Bandeira, Ascenso, Joaquim Cardozo, Cabral, Carlos Penna Filho, Sebastião Uchoa Leite... Todos grandes poetas. Da música não posso falar muito. Gosto mesmo é de jazz... Mas acho que o Manguebeat foi uma iniciativa muito interessante, por misturar, antropofagicamente, inúmeras influências. Recentemente escrevi um poema sobre a rua da Moeda, reduto do rock no Recife. Aí vai:

Rua da Moeda
tapa na cara dos reaças

enquanto
o poeta reaça
na lagoa
(maranhense) carioca
realça a garça
e condena o rock

lá em recife
a turma dança
de negro (fear of the dark)
e canta contra

(quanto mofo
gullar/tinhorão
surdo ao novo
patrono do pagode
banal)

tapa na cara dos reaças:

rua da moeda
dos punks do heavy
do soco socorro
metal pernambuco
contra a paralisia mental

enquanto
um passadista
síntese da direita
do preconceito
da retro seita
brada armorial

na rua da moeda
camisetas negras
mimetizam arrecifes
contra a onda
do fácil fascio
o burro coro coreto
nacional-popular

(quanto mofo
intolerância tola
implicância ditadura
na voz do velho
ariano feito dogma
preconceito feito god)

tapa na cara dos reaças:

rua da moeda
onde rock faz mais sentido
ácido pesado e divertido
contra a nação mesmice
um louco pernambuco dadá

Recife - São Paulo,
fevereiro-abril de 2002
Luiz - Como nasceu, ou melhor, como se deu a descoberta da poesia em Frederico Barbosa?
Frederico - De início, se deu por culpa do futebol. Sou palmeirense roxo (até na Segunda Divisão!) e no começo da adolescência meu maior ídolo era, é claro, Ademir da Guia. Morava, e ainda moro, perto do Parque Antártica, onde ia sempre vê-lo jogar... Um dia, quando eu tinha uns 14 anos, meu pai me mostrou o poema que João Cabral fez para o Ademir... A partir daquele momento não conseguia mais ver o Ademir jogar sem lembrar da descrição do Cabral... Já estava contaminado com o vírus da poesia.

No final da adolescência, no entanto, eu tinha dois grandes interesses intelectuais: a poesia e a ciência. A paixão pela poesia foi se se desenvolvendo, a partir do encontro com o poema de Cabral sobre Ademir, através da leitura de poetas como Gregório de Matos, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, entre os brasileiros, e Edgar Allan Poe, T. S. Eliot, Ezra Pound, William Carlos Williams, Rimbaud, Verlaine e Mallarmé entre tantos outros estrangeiros. Formou-se também a partir do convívio, muito precoce e sempre atento, com poetas como Augusto e Haroldo de Campos, Antonio Risério e Sebastião Uchoa Leite, entre outros.

Durante os anos de colegial, no final da década de 70, em meio à agitação cultural e política que marcaram o Colégio Equipe, em São Paulo, três professores foram fundamentais para fomentar minha vontade e meu vício de escrever poesia: José Luiz Beraldo, com seu rigor na análise cuidadosa dos fenômenos lingüísticos, Aguinaldo José Gonçalves, com suas leituras ricas, entusiasmadas e iluminadoras dos mais diversos poemas, e Gilson Rampazzo, professor de redação que, com suas posições firmes, instigava a discussão e me estimulava a escrever mais e mais, até mesmo, muitas vezes, com o intuito de me contrapor a suas idéias sobre o fazer poético.

No momento de escolher uma “carreira”, no entanto, a ciência me pareceu, de início, mais sedutora. Ingressei, aos 17 anos, no curso de graduação do Instituto de Física na Universidade de São Paulo. Logo percebi, porém, que o meu fascínio com a Física se dirigia mais para o estudo da filosofia da ciência e não para a Física tão abstrata e matemática que se ministrava, naquela época, ao menos, na faculdade.

Também não demorou muito para que eu percebesse o óbvio: tratava-se, acima de tudo, de uma fuga da poesia, que eu continuava a escrever, mesmo durante as maçantes aulas de Física, Química e Matemática. Datam dessa época os primeiros poemas que julguei dignos de publicação e que chamaram a atenção de críticos como Boris Schnaiderman e Haroldo de Campos, que, ao publicarem esses poemas em revistas, muito me incentivaram a trocar definitivamente a ciência pela poesia.

Assim, em 1982, iniciei os cursos de Português e Grego na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da mesma universidade. No ano seguinte, comecei a ensinar Literatura e Língua no Colégio Equipe, onde aprendi a ensinar procurando plantar sempre nas crianças e nos adolescentes o amor pela leitura e pela redação de poesia. É o que procuro fazer, a duras penas, até hoje, mesmo ensinando em um cursinho.
Luiz - Como é a relação entre o poeta, o crítico e o professor?
Frederico- É tudo uma coisa só, não? Acho que as três atividades precisam se exercidas com paixão e rigor. É o que procuro fazer.
Luiz - Como se revela a experiência do professor na confirmação ou na satisfação do poeta e do crítico?
Frederico - É difícil separar as coisas… Só que é muito interessante ver como muitos alunos que tive ficaram interessados em escrever e principalmente em ler poesia... Talvez isso seja fruto da paixão que procuro lhes passar.
Luiz - A crítica seria a base do exercício da cidadania, a atitude participante da poesia?
Frederico - Creio que todo artista tem o dever de refletir sobre sua arte. Nesse sentido não é possível um poeta ser “acrítico”, todos os verdadeiros poetas são, mesmo que não escrevam ensaios, “críticos”. Um artista acrítico não tem qualquer valor, assim como é lamentável que qualquer ser humano seja inconsciente, alienado e conformista.

Quanto à militância da crítica literária, a coisa já é bem mais complicada. Entre 1988 e 1990 procurei desenvolver, exercendo a função de crítico literário dos jornais Jornal da Tarde e Folha de S. Paulo, um trabalho de cunho absolutamente profissional. Jamais ia às redações e dificilmente conhecia os autores que resenhava. Apenas recebia os livros (em algumas épocas, um por semana), lia-os e os resenhava com toda a isenção possível.

Acredito, ainda hoje, que é assim que um resenhista profissional deve praticar o seu ofício: elogiando ou criticando um livro de acordo apenas com sua leitura, conceitos, ou mesmo convicções. No entanto, com o decorrer dos anos, tornou-se completamente impossível proceder dessa forma. A politicagem, os interesses pessoais passaram a predominar e eu via, entristecido, fecharem-se todas as possibilidades de seguir com isenção o trabalho. Passei a escrever apenas textos esporádicos somente sobre o que me interessava de fato.
Luiz - A seu ver, qual a dificuldade de absorção do público com relação à poesia contemporânea?
Frederico - A maior dificuldade, penso, está no acesso do público à literatura em, geral. Quantas livrarias há nesse país? As pessoas não estão acostumadas a ler. O público leitor de poesia é ínfimo em qualquer país, mas num país como nosso, em que as pessoas já lêem me geral muito pouco, a situação fica bem mais complicada. Creio que devemos encontrar soluções criativas para levar a literatura às pessoas.

Trabalhei, durante um tempo, com livros que foram vendidos em banca de jornal. Foi um sucesso inimaginável. Fui consultor e redator do volume Help! - Literatura, publicado pelo jornal O Estado de S. Paulo, com assombrosas tiragens de 1 milhão de exemplares, e consultor técnico das coleções "Ler é Aprender" (O Estado de S. Paulo), "Livros" (O Globo, Rio de Janeiro) e "Biblioteca ZH" (Zero Hora, Porto Alegre). Além de orientar as publicações, organizei, para essas coleções, vendidas em bancas de jornal a preço sempre inferior a três reais, vários volumes, entre eles, a coletânea Clássicos da Poesia Brasileira, os Poemas Escolhidos de Fernando Pessoa, Os Sonetos de Camões e os Contos Escolhidos de Artur Azevedo, além de assinar diversos dos estudos que acompanham as obras. Muito me empenhei nesse trabalho, já que possibilitou a milhões de brasileiros um primeiro contato com o melhor da literatura luso-brasileira. Para que você tenha uma idéia, só a coletânea Clássicos da Poesia Brasileira vendeu, nas várias edições que teve, cerca de 1 milhão de exemplares...
Luiz - Você fala de inventividade. Depois de todas as vanguardas, como você identifica as possibilidades de invenção?
Frederico - Invenção é tudo na arte. Dizer que a invenção está acabada é como dizer que História morreu... Balela. As vanguardas não foram o único momento inventivo na arte. Homero é um poeta de invenção, assim como Ésquilo, Sófocles... Não consigo conceber um poeta que se sente para escrever um poema “velho”. Ele sempre há de querer dizer algo novo, de maneira nova. Ou não será poeta... E há muitos “não poetas” por aí que se dizem “poetas pós-modernos”.
Luiz - A Internet tem possibilitado um caminho para a divulgação da poesia? Isto tem proporcionado uma descoberta de novos valores? Tem levado a uma maior assimilação do discurso poético por parte do público?
Frederico - Eu escrevi há alguns anos (está no meu site) o seguinte:

“A Internet é o mais democrático meio de divulgação de poesia já criado. Talvez seja a saída para que os poetas se libertem de uma indústria editorial muito mais preocupada com os resultados comerciais imediatos do que com a qualidade e, desde sempre, refratária à poesia. Assim, têm aparecido, nos últimos anos, inumeráveis sites de poesia e literatura na rede. Se, por um lado, isso é muito rico e pode ajudar a despertar um potencial público leitor, por outro lado dificulta a busca, tornando difícil encontrar poemas de real valor, principalmente para quem se está iniciando nas artes poéticas.”

Continuo acreditando nisso. Escrevi essas palavras quando criei o meu site, em 1999. Desde então, já tive mais de 75 mil visitantes no site dedicado à minha poesia e mais de 400 mil no dedicado a estudos de obras literárias. é assombroso. Só o meu livro mais recente, Cantar de Amor entre os Escombros, já teve mais de 8 mil visitas.

Como eu navego batante, já descobri muitos novos valores na rede sim. Alguns deles foram Micheliny Verunschki, de Arcoverde, PE, Lau Siqueira, gaúcho que mora em João Pessoa, Rodrigo de Souza Leão, do Rio de Janeiro, Greta Benitez, de Curitiba, Ronald Augusto, de Porto Alegre, etc.

Quanto a levar “a uma maior assimilação do discurso poético por parte do público”, como você o coloca, acho que ainda é muito cedo para avaliar... Espero que sim.
Luiz - Em um dos poemas do seu Oco sem beiras - Anatomia da Depressão, você traz: "Entre a expressão (banal) e a invenção (genial) fico com a impressão. Invento no leitor a impressão do horror. Imprima-se". Seria a sua contestação?
Frederico - Seria mais uma posição. Tenho horror à poesia “de expressão”, confessional, verborrágica: banal. Tenho enorme admiração pela poesia “de invenção”: genial. Mas busco, com o meu trabalho poético, a “impressão”. Aquilo que os gregos chamavam de “páthos”: imprimir no leitor uma marca forte, “o meu horror”.
Luiz - Como você define seu trabalho?
Frederico - Um rarefato louco no oco sem beiras, nada feito nada contracorrente. Em suma, cantar de amor entre os escombros.
Luiz - Que avaliação você faz do Rarefato até o Cantar de Amor entre os Escombros?
Frederico - São cinco livros de poesia... Com poemas que foram escritos entre 1978 e 2002: 24 anos! Difícil falar, não? Só dá para dizer que, ao contrário de muitos poetas que procuram esconder o seu passado, eu não me arrependo de ter publicado nenhum dos poemas. Acho que isso já diz muito.
Luiz - Como é passar de uma antologia da poesia clássica brasileira e, depois, partir para uma seleção da poesia de invenção no Brasil?
Frederico - São dois trabalhos totalmente diferentes. A antologia Cinco Séculos de Poesia reúne poemas anteriores ao modernismo, de 21 poetas absolutamente consagrados... Já Na Virada do século – Poesia de Invenção no Brasil reúne o que de mais significativo nós (eu e o Cláudio Daniel) conhecíamos da poesia produzida no Brasil a partir dos anos 90. É sempre mais arriscado e sei que cometemos algumas injustiças, até por que já descobrimos alguns autores que desconhecíamos na época em que fizemos a antologia. E se “viver é perigoso”, lidar com gente viva também o é. Mas “poesia é risco”...
Luiz - A seu ver, que nomes novos têm se destacado nessa poesia de invenção?
Frederico - Há muita coisa boa sendo produzida por aí. Mesmo correndo o risco de esquecer alguém, eu diria que os que me vêm à mente no momento são Amador Ribeiro Neto, Lau Siqueira, Micheliny Verunschki, Cláudio Daniel, Fabiano Calixto, Joca Reiners Terron, Paulo César de Carvalho, Jorge Padilha, André Ricardo Aguiar, Rodrigo de Souza Leão e muitos outros que são tão pouco conhecidos...
Luiz - Falemos agora da Coleção Alguidar: quais os propósitos dessa coleção?
Frederico - A iniciativa de organizar a Coleção Alguidar é mais uma tentativa de criar canais de comunicação entre os poetas e o público leitor potencial, que sempre tenho insistido em procurar acordar para a poesia.
A coleção, que será distribuida no Brasil e em Portugal, foi criada para apresentar ao público obras de poesia ou prosa inventiva de autores brasileiros e portugueses contemporâneos. Publicando autores já consagrados, ou inéditos de qualidade, tem como norma a exigência e o rigor. Busca revelar o vigor de uma literatura feita com inteligência, fornecendo ao público leitor da língua portuguesa o “biscoito fino” que ele merece. Procura seguir à risca o ensinamento dos versos de João Cabral de Melo Neto que lhe inspiraram o nome:

“Catar feijão se limita com escrever:
jogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.”

Tivemos a honra de publicar, como primeiro número da coleção, o livro A Regra Secreta, de Sebastião Uchoa Leite, que considero um dos maiores poetas que o Brasil já teve. Publicamos também o meu livro, Cantar de Amor entre os Escombros e já temos acertada a publicação dos livros de estréia de Micheliny Verunschki e de Paulo César de Carvalho. Esperamos publicar 2 ou 3 livros por semestre. Espero que dê certo, para que possamos publicar livros destes poetas todos que já citei e de outros que venham a aparecer.
Luiz - Para quem está se iniciando na trilha da poesia, o que o poeta, o crítico e o professor Frederico Barbosa teria a dizer?
Frederico - Caráter e coragem! E desconfie sempre dos caminhos fáceis. Evite a politicagem e lute sempre pelos seus princípios. Assim, certamente você não há de se “dar bem” e levará muita porrada. Mas só assim você talvez se torne um escritor significativo.

Entrevista concedida em 2009 para o Guia de Poesia.


sexta-feira, julho 25, 2014

PASSANDO A LIMPO 32 ANOS DE ARTE


PASSANDO A LIMPO 




Lembro bem, mas nem tanto que foi um dia lá de não sei quando dos anos 1970 – na verdade, cá pra nós, eu não tinha tirado ainda a catinga do mijo -, do momento em que se deu a minha primeira arteirice pública no palco da quadra do Colégio Diocesano.

Foi neste espaço que eu me apresentei na III Feira de Música, promovida pelo Fernando Pinras, cantando duas tranqueiras que denominei de músicas e que ousei ser da minha própria autoria: Escalavros e outra que nem sei nem mesmo o título que tinha, nem me peçam pra tocar por que eram garranchuras de tons e versos que nem eu mesmo sei como tive coragem de inscrever e, ainda, me apresentar. Valha-me.

Pronto, foi nesse exato momento que bati o centro levado por toda bola cheia que eu estava pela publicação dos meus poeminhas fajutos de infância, todo sábado no suplemento infantil Junior, do Diário de Pernambuco.

Na minha cabeça eu era o autor mais famoso do planeta, hehehehe, quando não passava de um ilustríssimo desconhecido que não era nem levado em consideração nem mesmo dentro de casa, avalie.

Entretanto, esse foi o momento que me consagrou para mim mesmo. Verdade.

Até então, eu só tocava de fato uma guitarra invisível no bucho, vociferando sucessos do momento e solando ao mesmo tempo, enquanto desafinava na música e rasgava os solos vocais como se fosse o mais exímio dos guitarristas.

Nesse tempo a plateia era grande: a namorada e uns dois ou três gatos pingados pacientes e mangadores.

Ah, lembrei da Biuzinha, uma já senhora que servia na casa da namorada, que ficava batendo palma e apoiando as minhas baboseiras artísticas. Na verdade, ela era muito paciente para ver no que ia dar aquele despropósito e depois caía na maior das gargalhadas.

Enquanto eu pensava comigo mesmo que estava abafando, imaginando estar num palco engalanado e cheio do glamour para uma plateia duns dois milhões de gente (tudo isso na minha cabeça, ora), a namorada se ria, a Biuzinha mangava e outros iam embora mandando eu me lascar.

Mesmo assim, isso tudo era um incentivo.

Tanto que aprendi na marra amontado no meu bigodin ralo de dez anos de idade, a mandar ver blem-blem telengotengo no violão, até compondo algumas coisas que eu chamava de música sem mesmo ainda saber dominar o instrumento.

A determinação foi tanta que aprendi os acordes, saí ajeitando um ao outro numa coisa que se podia chamar de ritmo e danava-me a abrir o peito e soltar a voz de qualquer jeito. Dias, tardes e noites até ficar rouco mesmo. Mas, tá!

Quando eu via o Marco Ripe tocando no banco da praça, eu ficava de mutuca espiando cada detalhe dos dedos dele em cada corda do violão. Filei, copiei, imitei, fiz de tudo e na minha cabeça eu já era um astro quando, pra meu desencanto, era um dos mais estrondosos desastres em qualquer hora que eu quisesse mostrar que eu sabia tocar violão.

Por meus próprios esforços, enfim, tropeçando nas notas, desafinando na voz, trejeitando o tempo todo, aos trancos e barrancos, vai que ia, voltava que não fui, meio lá e meio cá, enfim, dei por composta a primeira música.

Oxe, fiquei mais que envaidecido e queria mostrá-la de qualquer jeito. Ninguém queria ouvir, pois quando eu começava a trastejar no violão e destabocar a voz, a turma botava o rabo entre as pernas e se danava para conversar, nem aí pro meu grandioso sucesso universal. Destá.

Não me abati e dessa mesma atrapalhada forma, compus a segunda coisa que denominei de música. Juntei palavras mesmo que desarrumadas, ajustei tons mesmo que jamais harmônicos, e disse pra mim mesmo: - Essa está melhor que a outra. Um horror.

Foi aí que ouvi o anúncio no som volante de Help Baterista, dando conta da abertura de inscrições para uma Feira de Música que iria acontecer dali uns dias. Na hora corri para encontrar o parceiramigo Fernandinho Melo e o primartista Marquinhos Cabral que me deixaram a par de tudo. Oxe, era a hora.

Apois, providenciei tudo e como não tinha banda com coragem suficiente para se apresentar comigo (claro, os caras não eram bestas de levar vaia na cara assim de graça), acertei na inscrição que seria apresentação solo. Arrepara só.

Na minha cabeça eu era um violonista maior que Paulinho Nogueira e Laurindo Almeida juntos. Também era um cantor maior que Nelson Gonçalves e Luis Gonzaga. Claro, depois que ouvi João Gilberto e o estouro do sucesso de Roberto Carlos, nossa, eu disse pra mim mesmo: - Oxe, isso eu também faço. Chegou a minha hora. Insana ignorância.

Na verdade, o que me deu mais entusiasmo foi ouvir Desafinado com João Gilberto. Não sabia eu, na minha mais aguda ingenuidade de bestão do mijado fedido, que pra arte precisa ser bom. E eu me tinha como o bom dos bons, danou-se! Pois inventei de tentar executar essa música Desafinado, resultado: fui pro palco sem ainda saber nem pra onde iam os acordes dessa magistral canção.

Mas como desafinado descarado que se preze não corre da raia, chegou o dia da apresentação e eu lá: sozinho no palco, violão na caixa dos peitos (imitando, claro, Chico Buarque), tremendo que só vara verde, abri a boca, mandei no recado e num instante terminei. Pronto: esperei a vaia comer no centro. A minha surpresa foi que aplaudiram, claro, plateia generosa, todo mundo conhecido. Mesmo assim, saí mais vermelho que morango maduro no galho do pé do quintal. Queria era me esconder, mas tinha que esperar para a segunda apresentação. Ué, nunca fui covarde!

Lá estou eu de novo sendo anunciado, subindo ao palco, sem nem olhar pro júri nem pra plateia, tasquei os dedos na corda e abri o berreiro. Tão rapidamente começou, assim mesmo terminou. Outros aplausos e eu procurando um buraco no chão pra me socar de morto de vergonha.

Pronto, tirei o cabaço. Nem esperei o resultado nem sei até hoje que classificação ficaram as músicas (acredito que viraram lanternas na lista, arengando as duas músicas para qual ficaria no último lugar). O que valia de mesmo era que eu tinha tirado o cabaço e a culpa é do Pinras que permitiu que músicas tão trejeituosas fossem apresentadas, e da plateia que ainda tiveram o desplante e a complacência de aplaudir o que não deveria ser nem executado. O júri está poupado do meu escárnio porque, claro, devidamente deram a nota acertada para que eu desistisse de ter a cara de pau de inventar de cantar um dia. Mas como não tomei conhecimento da manifestação do júri, sigo incólume até hoje abusando da paciência e da boa vontade alheia. Ainda hoje passo por esse vexame.

Depois disso, todo dia é uma surpresa para mim. Até mesmo hoje, a querida Meimei Corrêa acha de fazer um registro de comemoração desses meus trinta e dois anos de tentativa, contando, ainda, com a generosidade dos amigos Ricardo Machado e da Mônica Brandão. Mesmo sabendo quem sou, obrigado. Minha gratidão eterna procês.

Veja detalhes da homenagem aqui.